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She talks to rainbow.

abril 29th, 2009

Um dia amou a chuva como os cavalos marinhos amam o mar de maneira singela, e honesta. Quando pequena, regava o jardim, e se sentia plantando arco-íris por todo lado com aquela mangueira cor de laranja. Um dia, ela deixou de ser pequena, deixou de ser singela, deixou de ser honesta, deixou de amar a chuva. Só a plantação permaneceu .
Descolorindo.
Descolorindo.
Descolorindo.

Agora não adianta querer tudo de volta.

Protegido: Like Walden

abril 29th, 2009

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Suite Quebra-Nozes.

abril 29th, 2009

Alguém já esteve perto de uma bomba que explodiu? De um carro? De um homem?
A primeira impressão que se tem, não, não há uma primeira impressão, é um grave e profundo som que parece que está em você, nos seus pulmões, nos seus ouvidos, é como se você fosse uma caixa de ressonância. Você é os graves. Os Graves.
Os agudos, são menos perceptíveis, mesmo porque você não escuta direito depois da explosão.
Vi uma mão com parte do braço passar a centímetros do meu rosto e cair sobre o painel de um carro parado que ainda oscilava. Bati nas minhas orelhas, querendo acordar os meus ouvidos… ouvia os agudos… baixos e distantes, primeiro eram vidros e estilhaços caindo, depois gritos, o desespero é agudo, é ardido.
Quando você vê uma mão e parte de um braço passarem a centímetros do seu nariz, você apenas fica feliz por não serem seus membros voando pelo ar.
Em meio a isso tudo, tem um milésimo de segundo, onde tudo parece parar, antes do BUM.
Como se tudo, se o tudo, ficasse suspenso no tempo, acho que fica.
Aquela mão, era mão de mulher.
E eu estava intacta. INTACTA.
Meio surda, mas intacta. Só conseguia pensar na segunda bomba.
Terroristas sempre usam a segunda bomba. Os agudos foram aumentando. Mais vozes, mais gritos, sirenes e buzinas, e as pessoas começaram a se aglomerar, meu tornozelo começou a doer.
Mas eu estava intacta. Só havia sofrido uma queda pelo deslocamento bruto de ar. Mas estava longe o suficiente pra que a explosão não me causasse danos graves. Não pensei em salvar ninguém, não me dispus a socorrer ninguém, comecei a correr, por uma viela, queria me afastar o mais que pudesse daquele pequeno centro comercial.
A segunda bomba.
Uns 5 minutos depois, escutei, já de uma distância mais segura a segunda explosão.
Alguém já esmagou como dedo uma formiga doceira?
Faça, e observe…
As demais formigas nas proximidades correm pra ajudar a companheira, ou pra carregar o cadáver… é quando você pode matar mais formigas doceiras.
Sempre se lembre da segunda bomba se sobreviver a primeira.
Corra.
No hotel, eu lavei o rosto, lavei as mãos, tirei as roupas com respingos de sangue que não me pertenciam, e por mais que eu lavasse os olhos, não conseguia apagar aquela imagem da mão presa ainda a um pedaço do braço passando a centímetros do meu nariz.
Depois que tudo passa, você percebe, que.. não passa.
Ver pela tv é um tanto diferente. É bang-bang à italiana.
In loco, a experiência me pareceu um tanto diferente. Mais contraste, menos fumaça, mais sonora, grave… Na tv, só vemos os agudos.
Aquele soldado sem uma das pernas sentado na calçada, estancando a própria hemorragia me lembrou o quebra-nozes.
Nós somos as nozes no front.

Alguém já esteve perto de uma bomba que explodiu? De um carro? De um homem?

 

( Em um papel perdido pela cara.)

————–

” As profecias nunca disseram nada sobre você.
Falam sobre crianças que nascem com cobras entre seus pés, e não temem o estrondo das tempestades. Falam sobre trombetas, e espetáculos pirotécnicos. Sobre falanges de xipógafos se fagocitando, mas não falaram sobre seu encanto.

O comércio da fé, não pagou minhas contas, não cumpri a pena pelo estelionato que se tornou a vida em família.
a falsidade psicotrópica dos deuses pintados com tinta de segunda sobre superfícies…
SU-PER-FI-CI-A-IS
não me redimi dos meus pecados, tampouco tive o seu perdão.

As profecias dizem:
“… não saberás distinguir o bom do mau absinto.”

SINTO MUITO MEU AMOR
mas as profecias nunca disseram nada sobre você e eu…
sobre os olhares que nunca se encontravam e se despediam,
sobre as falhas de caráter que nunca nos afligiram,
sobre como tremia a sua sob a minha mão macia.

As profecias não disseram nada,
não disseram porque não se sabia que nossos profetas,
vivem em profunda afasia.”

————–

Ele não achava sentido nos papéis que achava pela casa.
Pra quem ela escrevia? Sobre quem? Sobre o que?
Ele sabia que aquelas palavras não eram pra ele, e deixava os papéis onde …  eles estavam. Por vezes, nem os lia. Era um repeito incondicional pelos outros lados que nela existia. E talvez fosse isso, esse repeito, que sempre a trazia de volta.
Ele nunca sentiu ciúmes, porque nunca soube de quem sentir. Pra ele, aquelas pessoas descritas, eram, apenas, imaginação.
Eram os outros que deveriam sentir ciúmes, porque ela no ombro dele que ela dormia todas as noites, até que seu braço começasse a doer, e então ele pousava a cabeça dela sobre o travesseiro ao lado e só então dormia.

A conhecia há tantos anos, e ainda havia tanto pra descobrir.

Cobriu seu corpo com o edredom, se virou e não demorou a dormir.

 

Em alguns momentos, nem ele entende, como pode sentir raiva e saudade ao mesmo tempo.
Só a luz do monitor  ilumina o cômodo.
A vida vai bem, tudo tão certo quanto deveria estar se assim não estivesse. Porque então alguma coisa no peito parecia não estar no seu devido lugar.
Seria angústia?
Mágoa?
Saudade?
Talvez fosse a dúvida por não saber como haveria de ter sido se não fosse como é.
Seria mais feliz?
Ele nem sabia dizer se era feliz, pra poder se questionar se podia ser mais.
As alegrias iam e vinham. A perfeição de tudo não o satisfazia como esperava que uma vida a dois deveria. Uma vida a dois, aquilo soava tão estranho pra ele.
Se lembrava de alguém a dizer, que duas vidas juntas eram melhor que uma vida a dois.
Alguém ainda parecia morar nos seus olhos fechados. Sim, ele era capaz de ver alguém, quando fechava seus olhos castanhos e brilhantes.
Alguém que às vezes ele queria que estivesse compartilhando dos momentos bons que ele tinha, alguém, que não existiamais.
Alguém que talvez nunca tivesse existido, verdadeiramente.

Alguém que ele jamais pôde prever. Nem ver, nem tocar.

Alguém que ele, às vezes, imaginava sentir. Pensava se ela ainda lembraria dele, após tantos anos, se ela ainda pensava nele com força, pra que ele, pensasse nela, no mesmo instante. E toda vez que ele lembrava dela, aleatoriamente, ele pensava que talvez ela estivesse tentando um contato telepático. Mas quem ainda recorreria a contatos telepáticos com tanta tecnologia de comunicação a disposição… ela tentaria.
E ele… sabia disso.
Nenhuma mensagem nova na caixa de entrada.

 

5:51am Parte I – A pele.

abril 29th, 2009

Sentada na cama, ela coloca a meia calça, enquanto ele centraliza o nó da gravata que combina perfeitamente com seu terno de 2.000 dólares, o colar de pérolas que ela gosta de usar com seu pretinho, sempre,  tão básico, não contrasta com o tom de sua pele clara. Os brincos discretos compõem um visual elegante, tanto quanto deveria ser, se assim não fosse.
Tudo perfeito?

Olhando pro espelho, ele se depara com os próprios olhos, castanhos e brilhantes, e se vê como a figura principal de uma pintura acadêmica emoldurada por perfeição e tédio. Se detém por um instante nos ângulos formados pela moldura do espelho, pelos ângulos dos espaços do seu closet, e os ângulos da porta  aberta que da para o quarto, por onde a imagem perfeita da vida perfeita podia entrar e agrediar seus olhos, seus olhos castanhos e ainda brilhantes.

Tudo perfeito?

Sob o punho da camisa milimetricamente bem cortada uma picada de pernilongo coça. E há de coçar por muito tempo, ainda.

 

Van Gogh

abril 29th, 2009

As equipes estavam concentrando as buscas nos locais onde havia maior concentração de pessoas no momento do terremoto. Após 9 dias, as esperanças eram muito pequenas.
Não havia estrutura pra buscas mais abrangentes, não havia equipamento, nem profissionais especializados.
O cheiro de carne em decomposição era pano de fundo praqueles dias.
A viagem de intercâmbio se tornou uma viagem humanitária. Ela não sabia onde e como estavam seus colegas de quarto, e não se preocupava com isso. Concentrava-se em pegar o entulho das ruínas, e carrega-los pra fora do local do desabamento. Apesar de usar luvas de borracha bem grossas, suas mãos estavam doloridas, suas costas e seus calcanhares também. Aquele era um trabalho de formiguinha, e ser mais uma naquela multidão de mascarados satisfazia algo dentro de si.
O cheiro de morte a lembrava de casa.
No caminho que fazia entre a chácara onde vivia e a estrada mais próxima, sempre sentia o cheio de animais mortos no meio da plantação, e quando olhava pro céu azul, via vários corvos e urubus.
Sempre pensava em Van Gogh. Sempre pensava que ele havia pintado o cheio da morte debaixo daquele céu azul, naquele campo amarelo.
Era o cheiro da morte.
Campos cheios de morte, girassóis apodrecendo em um vaso… Van Gogh fedia.

“for you I even be a sunflower… another reason to cut off an ear”

Ressonância magnética.

abril 29th, 2009

Tudo no mundo parece velho demais.
As situações se repetem sem a menor cerimônia, sem o menor constrangimento.
Nem a brutalidade, nem a selvageria, que vez ou outra, vejo brotar nos humanos ao redor cheiram surpresa. Tudo se repete, e às vezes, nem o nome dos personagens são trocados.
O querer tanto instiga, quanto corrói, e não é a dose que distingue o remédio do veneno, é a fé.
Eu não tenho fé, mas também não tenho uma Ferrari. Acho que dá pra viver sem algumas coisas.
Mas, viver sem coisas novas…
O que define uma coisa como nova, não é a idade, é a falta de conhecimento que temos sobre ela, e muitas coisas novas estavam no passado, antes das coisas começarem a se repetir dessa maneira.
Novo era tudo aquilo que eu não conhecia.
Eu era tão nova.

E agora quero tudo de volta.

Bolo está no forno.

Na fábrica ele trabalhava na linha de produção.
Era um trabalho metódico, repetitivo, cheio de gabaritos e nenhuma inspiração.
Ao contrário de qualquer outra pessoa, ele gostava. Gostava da segurança que sentia em saber que faria sempre a mesma coisa, sempre do mesmo jeito, gostava de saber que podia contar sempre com o mesmo dinheiro no final do mês.

Porque então amava aquela menina?

Ele nunca sabia se ela voltaria após cada partida, ele nunca sabia quem iria encontrar em casa encarnada naquele corpo cheio de carnes e emoções brutas.
Talvez fosse toda aquela instabilidade que o fizesse amar as 8 horas de acontecimentos meticulosamente ordenados que tinha no trabalho. Era como se ele fosse remunerado por algo que realmente precisava… segurança. Ou será que ele precisava sentir que controlava algo em sua vida.

Aquela menina era toda descontrolada.
Aquele menino da linha de montagem era matematicamente calculado.

Havia uma ou outra coisa que ele não entendia, aquela menina que vivia com as mãos com marcadas por queimaduras, tinha 4 cadernos de receitas e outros tantos livros de culinária…
Porque ela sempre tentava fazer bolos sem usar nenhuma receita?
Certa vez ele cogitou a possibilidade dela estar inventando uma receita própria, mas ela nunca anotava as medidas, nunca anotava as medidas.

Fôrma nº20, 40min, 150 graus.

O bolo está no forno.

 

“Não é possível que você acredite numa coisa dessas depois de tudo que vivemos juntos!”
“Não me contaram, eu estava na extensão, ouvi vocês dois conversando.”

————–

Ronnie… era uma boa idéia.
Uma idéia doce, fálica, absurda, terna, violenta e bifurcada.
A idéia Ronnie era violentamente doce.
Aquele jeito de estar… sempre todo torto, sempre inconstante, sempre olhando pra ela pela através da lente da máquina fotográfica… ele gostava de olhar pra ela dessa maneira. Gostava de como a luz parecia se decompor quando passava por ela. Pra ele, a luz passava por ela… como partículas exóticas. como wimps ou neutrinos. Pra ela, ele era a sua partícula mais exótica.
O erotismo imagético residia nas figurinhas carimbadas, que ele grudava na pele dela como curativos coloridos e cheios de bichinhos.
Era tudo assim entre eles, grudado, curado, curativado, cura-ativada um para o outro. Eles não sabiam ser um outro, cada um era um, inteiro, peça sem encaixe, auto-adesiva, translúcida e fluorescente.

_ Passa a manteiga por favor.
_ Vou tatuar você.
_ A margarina, Ronnie, por favor
_Vou escrever Mortal But Invincible nas suas costas
_ A margarina ou a manteira, POR FAVOR!
_ Quanto vai de margarina?
_ O suficiente
_ O suficiente basta?
_ Acho que não, mas se basta, acaba onde basta lembra?
_ Sim, e nada que se pareça com isso deve ser o sentido da vida não é?
_ Sim… sabe, um dia farei o bolo perfeito…
_ Um bolo sem receita?
_Um bolo que jamais se repetirá! Um dia a receita caótica vai dar certo, como um macaco em uma maquina de escrever reproduzindo Otelo!
_ Graaaande, Otelo!
_Macunaíma?
_Pode ser… vou a locadora então.
_ Feito!

————–

“Não é possível que você acredite numa coisa dessas depois de tudo que vivemos juntos!”
“Não me contaram, eu estava na extensão, ouvi vocês dois conversando.”

Não eram eles dois, eram outros dois, os outros que eles não sabiam ser, eram outros, outros vultos, insultos, Ronnie e Madeleine eram intocáveis, eram inspiração.

“Não era eu, acredite, era Madeleine, MADELEINE!”

 

O vulto.

abril 29th, 2009

Os papéis sobre a mesa se acumulavam.
Os arquivos no computador também.
Muita coisa pra fazer, e tanto tempo pra se perder.
A garrafa de vinho vagabundo filtrava o único fio de raio de sol que adentrada o quarto por um vão da janela, deixando o quarto todo azulado.
O entremeio sem continuidade o incomodava um tanto, mas o que realmente o preocupava era não saber onde havia guardado o cortador de unhas. Deitado na cama, com os pés sobre o cobertor velho dobrado, ele olhava suas unhas grandes e azuis, e decidiu que naquele dia não se levantaria. Não por falta de vontade de ir trabalhar, mas por não querer calçar meias com aquelas unhas tão grandes.
Sua mãe sempre dizia que quem guardava as coisas nos seus devidos lugares sempre sabia onde tudo estava.
Pena que sua mãe não o guardou em um lugar de onde ele jamais se perderia.
Perdido, num quarto de cinco por quatro.
Perdido. Como o cortador de unhas.
O telefone tocava sem parar há mais de uma hora. Seria sua esposa? Seria sua mãe? Seria seu patrão? Seria Madeleine?
Madeleine era uma ideia tão densa, tão intensa, tão meticulosamente desenhada por Dedalus que era felicidade se perder na ideia Madeleine.
Insultos, tudo o que ela dizia soava como insultos. Não eram coisas ruins, mas eram coisas às quais ele reagia.
Era bom poder reagir à alguma coisa àquela altura.
Madeleine não tinha belas curvas, não tinha belas pernas, nem era longilínea, Madeleine era uma força destruidora, dessas que a natureza esconde de maneira silenciosa e premeditada, e então acontece. É, Madeleine era uma força da natureza.
Às vezes parecia um lusco-fusco, mas era 9 na escala Richter.
Madeleine era um HD inteiro de coisas significativas, Madeleine era um hemisfério todo de lembranças, de cheiros, de texturas, de olhares furtivos, de abraços apertados, de desejos que nunca foram segredados.
Madeleine não era bonita. Madeleine era, ele dizia, uma inspiração encarnada que rondava seus pensamentos.
Na quinta série, quando a conheceu, ela estava no laboratório de ciências, durante o intervalo. Ele executando seu plano que seria infalível, se não fosse pela presença azulada de Madeleine. Ela, tingida de azul de metileno, experimentava transmutar para azul uma rosa branca “os capilares vão levar o pigmento até as pétalas” – explicou ela então, enquanto ele roubava um feto humano abortado pra fazer um abajour para o seu quarto.
O feto azulado no canto do quarto lembrava Madeleine, (e) sua flor azul.

 

Café expresso.

abril 29th, 2009

“Café expresso, forte, encorpado, sem açúcar, por favor”- ele odiava café solúvel.
O dia começava após a primeira dose de cafeína.

Todavia, mais um dia.

Já não suportava mais o peso da carne, a gravidade, as pessoas, os lugares, as mesmas conversas, não, ele não suportava mais.
Não suportava mais não caber em si, não suportava não poder voar, não suportava olhar as pessoas e enxergá-las como elas não eram capazes de fazer… ele queria ter nascido de olhos fechados pro mundo, não agüentava mais as vaidades, a vacuidade do ser. Não mais.
Colocou uma roupa qualquer, o mesmo par de coturnos de sempre sobre as mesmas meias de ontem, pegou a lata de tinta pra pintar a parede do studio e foi pra onde deveria ir.
Querer, ele queria mesmo ir pro meio do mato. Queria subir num pé de carambolas, e escutar aquele silencio…
Ele dizia “Escuta, minina…” e não havia nada pra escutar, e isto o agradava.
A não interferência humana.

 

A retrovisão.

abril 29th, 2009

A ilha Isabela arde.
Caminhando rumo às nuvens, ela esperava encontrar um caminho parecido com algum que a levasse pra um inferno estereotipado qualquer, mas se sentia subindo incorporada ao céu.
Fazia frio, envolta em brumas. quanto mais abria os olhos, menos enxergava.
Depois de uma hora e meia sobre o lombo de um cavalo “bem traiado”, uma paisagem tem que ser realmente avassaladora pra suprimir a dor nas suas próprias ancas.
A paisagem primitiva do Sierra Negra era realmente avassaladora.
Ela só conseguia pensar que o inferno ficava mais próximo do céu do que se podia imaginar.
A 1200m de altitude, um enorme caldeirão fumegante com uma cratera de 90km² que podia explodir a qualquer momento num evento devastador justifica qualquer dor.
Os cavalos não avançaram mais, o terreno escorregadio os impedia de prosseguir, não a falta de coragem.
O guia era conciso nas informações, adestrado pra dizer sempre as mesmas coisas não sabia como responder algumas das perguntas que ela fazia, talvez, geologicamente muito complexas, ou por demais específicas.
Ela cultivava um curioso interesse por vulcões, desde que numa madrugada de 1988, durante uma transmissão de ginástica olímpica das Olimpíadas de Seul, a apresentação do ginasta Dimitri Bilozertchev fora interrompida por uma chamada jornalística que mostrava o vulcão Kilawea em erupção no Hawai. Kilawae ardia debaixo d’água. Ela, ardia sob sua própria pele. Assim como Isabela la isla bela.
Olhando para o pé Sierra Negra, se lembrou dos seus próprios pés.
Muitos anos atrás, numa tarde quente, ela olhava para seus pés e pensava em algo do qual já não se lembrava, quando olhou pelo retrovisor e viu alguém correndo no meio da rua.
Era seu amigo.
Um do tipo que não havia dois.
Ela desceu do carro ainda em movimento, e desceu correndo em sua direção, se encontrando com ele num abraço de doer.
“Ai minha orelhas, acabei de dilata-las mais” – disse ele colocando as mãos nas orelhas.
E então ele lhe mostrou a língua, bifurcada, que a deixou muito muito muito  irada, pois haviam  combinado de bifurcarem suas línguas no mesmo dia…
A ideia de separar- juntos agradava a ambos de uma maneira ininteligível. Era uma dilaceração poética para eles.
“Bifurquei a uma semana, cicatrizou super bem, sem nenhum problema” ele disse e continuou

“Nossa, como você está bonita” -  ela pensou que ele só havia dito aquilo porque estavam vestindo a mesma roupa.
Ambos de camiseta camuflada, calça azul e coturnos.
O dia estava muito quente, ele estava suado, havia corrido uma quadra na subida atrás do carro segurando uma lata de tinta com a qual ia pintar o studio naquela tarde, e ainda assim seu cheiro era bom.
Na sua cabeça pedaços das frases daquela última conversa, apareciam e sumiam, como vaga-lumes.
“quero ir pra sua casa, e dormir lá, e subir nas árvores”
“você vem me buscar?”
Isabela ardia, como só as meninas sabem arder com lembranças tardias.

 

O leão.

abril 29th, 2009

Anos depois, na sala de parto ela havia de se lembrar do último abraço do amor que mata que havia recebido até então, numa tarde de sol de dezembro, no meio de uma rua sem nenhuma árvore por dezenas de metros.
Seu filho nasceu quieto, não chorou, não abriu os olhos, apenas bocejou… levado ao peito para a primeira mamada, ele abocanhou o peito da mãe e a apertou com as pequenas mãos, o que lhe arrancou lágrimas, e lhe trouxe algumas cores de volta.

Era uma criança calma, nascido num dia frio de agosto, todo rosado, de olhos fechados, e forte como um leão havia de ser.
Cresceu e se mostrou uma criança inventiva, paciente, criativa, metodicamente desorganizada o que não a preocupava, mas a divertia.
Ela o abraçava com o abraço do amor que mata de asfixia mecânica.

Imperfeição.

abril 29th, 2009

O material orgânico já compostado estava no ponto pra ser aproveitado. Destampou a composteira, pegou um punhado de material, e colocou delicadamente num copo com água…
A terra preta e úmida se diluiu…
Três meses haviam se passado desde que o pé de carambolas havia sido derrubado.
Se sentia triste, não pela morte da sua árvore de estrelas comestíveis, mas pelo motivo que a fizera tomar a decisão de derrubá-la.
Três meses idos desde que seu melhor amigo havia se matado.
Seis meses desde que ele subira no pé de carambolas pela última vez.
“Não dá pra compostar lembranças e saudades, uma pena.”
Disse ela as minhocas, acho… já que só haviam minhocas ali.

Tinta úmida.

abril 29th, 2009

Dirigindo seu carro sempre de maneira cautelosa, ele subia a rua falando sobre a cor da tinta que ela havia escolhido pra pintar o portão.
Ele falava, e ela parecia não escutar, estava olhando pros próprios pés desde que entrara no carro, com as mãos sobre a calça azul que estava esquentando muito ao sol.
Sol de dezembro.
No porta-malas do carro, duas latas de tinta, e alguns suplementos que seriam usados.
A rua que subiam cruzava uma avenida, pra passar pelo sinal verde ele acelerou, ela tirou o olhar de sobre seus pés, e olhou pelo espelho retrovisor, viu alguém correndo no meio da rua, mas seu astigmatismo não a deixou enxergar.
“O louco do seu amigo está correndo atrás do carro.” – disse ele.
Ela sorriu, e abriu a porta do carro ainda em movimento.
Ele desacelerou e ela desceu ainda com o carro andando, e foi ao encontro daquele louco.
Sozinho no carro, e já no cruzamento das vias, ele achou melhor atravessar e parar sob a sombra de uma árvore, enquanto aqueles dois loucos se abraçavam no meio da rua.
Pensou que ambos subiriam até onde ele estava, pra que todos conversassem.
Ignorando o trânsito, só o sol forte pra tirar aqueles loucos do meio da rua.
Ele estava curioso pra saber porque não subiam até onde ele estava.
Curioso pra saber sobre o que falavam.
Curioso pra saber porque o louco do amigo dela havia corrido daquela maneira atrás do carro.
Um minuto é muito quando se espera por alguém.
Quarenta minutos, parecem intermináveis.
Então aqueles dois loucos começaram a subir em sua direção, e por um segundo ele se sentiu aliviado.
Quando ela ia pra longe, ele, sempre se perguntava se ela voltaria.
Ela, sempre voltava.
Mas o que realmente o incomodava é que, Ela, sempre ia.

 

Bolhas de sabão.

abril 29th, 2009

O mesmo ônibus até o mesmo trabalho de sempre. Só o tédio parecia não ser o mesmo, a cada dia se apresentava de maneira diferente, maior, e mais contundente. Sentada no ônibus, ela, respirava voluntariamente e parava, pra saber se seus pulmões se encheriam novamente e involuntariamente… “Eles sempre se enchem” – constatou ela com um certo desânimo.

Madeleine, como toda cidadã de Otávia, era um tanto inconstante, vivia seus dias pendurada na incerteza, usava sempre o mesmo relógio parado, os mesmos coturnos mal-amarrados, o mesmo sorriso descarado e nunca tomava o café da manhã na mesma padaria por duas vezes seguidas. Gostava de pessoas, de vê-las, de cheirá-las, de senti-las, mas nunca interagia. Passava seus dias, e às vezes, seus dias eram noites inteiras, e outras vezes, noites e meia, e outras tantas horas, desenhando e escrevendo num pequeno caderno ordinário de espirais meio amassadas e capa de um quadriculado anacrônico.

“Mal acabado, tudo mal acabado.” olhava seus desenhos e não conseguia termina-los. As idéias se sobre punham, idéias novas, fulgurantes, cheias de cores, de contrastes, e se tornavam ontem com a mesma velocidade que apareciam.

“Bolhas de sabão” sabia ela.

 

Todavia mais um dia

abril 29th, 2009

Era um sujeito comum, sujeito as intempéries e a toda sorte de cataclismos de um cotidiano cheio de rotinas.

Sentado na cadeira sem par que permanecia no canto do quarto, ele se debruça sobre seus joelhos, e amarra, outra vez, numa outra manhã, de uma outra maneira, os mesmos sapatos. Mas ele não era o mesmo… nem a sola dos seus sapatos. Ambos, cada vez mais carcomidos.

O tempo para Ronie parecia uma roda gigante, que o levava todas às manhãs a vislumbrar a mesma luz alaranjada entrando pela janela da sala do seu pequeno apartamento, no centro velho de uma metrópole carcomida, assim como seus sapatos. Não via o céu, nem o sol, apenas o reflexo da luz que batia todas as manhãs na parede do prédio ao lado cheio de pequenos ladrilhos cor de laranja.

Mesmo depois dos sapatos amarrados, Ronie permaneceu debruçado sobre seus joelhos, num instante fleumático, tentando achar animo, ou a anima.

Todavia, mais um dia.

 

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