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Di-alog-o

maio 31st, 2010

_ Oi – disse ele.
_ Não! – ela disse
_ Tudo bem?
_ A barca já chegou… Hou da barca! Houlá! Hou! Haveis logo de partir?
_ Qual seu nome?
_ Trinta e sete pessoas ainda cabem na barca.
_ Você poderia me dizer seu nome?
_ Eu tinha um cachorro, e ele tinha três patas.
_ Ele se acidentou?
_ Elas se chamavam Chandra, Alisha e Devandra.
_ Não entendi.
_ Eram três patinhas lindas que adoravam nadar.
_ Eram três patas, fêmeas?
_ Eram sulistas. Traziam bodoque à tira colo.
_ As patas eram sulistas?
_ As fêmeas. Que cheiravam a lombo de cavalo.
_ Do que está falando?
_ Estou falando de você, e dos seus amigos.
_ Mas eu estou só.
_ Eles também acham que estão. Não é porque vocês não conseguem se ver que estão sozinhos.
_ Você esta falando comigo? Olhe pra mim.
_ Estou falando de você.
_ Com quem?
_ Com Jó e seu escravos.
_ Onde eles estão?
_ Jogando caxangá.
_ Você joga também?
_ Jogo, sou capitã do meu time.
_ Não entendi.
_ Sabia que se você olhar bem de perto a palma da sua mão com a luz/não-luz do lusco-fusco, você pode ver cordões de nível na palma das suas mãos?
_ Me ensina?
_ O caminho não se ensina, se desenha, se cria, passo-a-passo, com intervalos e interlúdios, lúdicos não desvendados.
_ Eu quero saber seu nome.
_ Dados, estou dizendo, dados, apenas dados.
_ Sim, eu estou aqui pra colher seus dados.
_ Eu não planto mais dados, eu planto olhos de guaraná.
_ Como assim?
_ Come? Mastigue bem antes de engolir, as gigantes vermelhas e as anãs brancas se fagocitam numa dança mortal.
_ Você sabe o seu nome?
_ Eu sei quando me chamam pra ir almoçar, eu sei quando me chamam pra tomar banho, eu sei meu nome.
_ Seu nome é Phoebe?
_ Meu nome Phoebe não é, eu sou aquela que tem seis dedos em cada pé.
_ Na sua ficha diz Phoebe.
_ No seu crachá diz “visitante”.
_ Sim, eu não sou residente, eu sou visitante. Você entende o que eu estou fazendo aqui?
_ Entendo, você é um visitador… vistador… vidi… que vê com frequência.
_ Sim, é meu trabalho, ver com frequência pessoas como você.
_ Existem outras?
_ Sim.
_ como eu?
_ Sim.
_ Elas também estão em barcos?
_ Sim, como você.
_ Naus, que naus…
Naus partem — naus não, barcos, mas as naus estão em mim,
E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta,
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta,
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida…
_ Quando chegou aqui, disse que seu nome era Phoebe, você tem que se lembrar do seu nome, preciso preencher sua ficha, e tentar encontrar sua família.
_ Quando? Ontem. Ontem eu cheguei aqui, mas não havia nada além de uma escada, subi a escala, e no alto dela havia um praticável, que girava e girava.
_ Você se lembra de algo sobre sua família?
_ Onde levaram minha roupa de bailarina? Eu tinha asas ontem, e elas estavam aptas a decaptação, afiadas e polidas, reluzentes e precisas.
_ Você tem uma cicatriz grande no abdome, sabe dizer o que aconteceu?
_ Foi um espetáculo. Eu era bailarina do Circo Fernando, Lautrec ele me pintou, me disse que pintou, ele estava na platéia aquele dia, e sobre o cavalo eu percorri o picadeiro, com uma destreza nunca antes experimentada por mim, e no número seguinte, eu estava partida em duas pelo mágico. Bipartida, bipolarizada, bifurcada…

_ Doutor ela não fala coisa com coisa.
_ Ainda assim é bom de conversar com ela. Alguém conseguiu tirar-lhe alguma informação não fantasiosa?
_ Não, o mais próximo da realidade que ela chega é quando fala de barcos, que levam insanos que estão em busca da razão.
_ A loucura é um estágio de liberdade tão abrangente que os que flertam com ela se tornam prisioneiros da mais absoluta liberdade, da única prisão sem jaulas, da mente, que como um barco cheio de insanos procurando por seu lugar, sempre os tem, os mantém embarcados confiando-lhes um outro lugar que não o seu.
_ Doutor, o caso dela é irreversível?
_ Não posso precisar. Ela parece confortável onde está. É uma realidade tão fragmentada, multifacetada e transcendida, que chego a pensar que loucos estamos nós, todos vestidos de brancos, vivendo sob a égide dos ponteiros do relógio.
_ É, Doutor, meu estágio por hoje terminou.
_ Pode se retirar, mas não esqueça de deixar seu relatório sobre minha mesa.

Enquanto isso, uma menina vestida de bailarina, corria sobre os campos coloridos entrecortados por cordões de nível iluminados pela luz/não-luz num lusco-fusco, a segurar em uma das mãos a ponta da saia e na outra um balão de gás.

_ Que bom que chegou.
_ Estamos bem agora, você pode parar de se esconder.
_ Eles já foram?
_ Sim.
_ Estamos sozinhas?
_ Sempre estamos sozinhas.
_ O que eles disseram desta vez?
_ Que não sabem se é irreversível.
_ Enquanto for assim, estaremos seguras.
_ Eu lhe protejo. Eles acreditam em tudo que eu digo.
_ Eles sempre acreditam.
_ Eles acreditam em tudo que conseguem enxergar, tocar, cheirar e provar…
_ É, eles sempre acreditam.
_ Eles acham que somos loucas.
_ Pra eles, somos.
_ A diferença entre nós e eles, é que eles vivem do lado de fora, achando que não podemos sair, e nós vivemos do lado de dentro, sabendo que eles não sabem que podem entrar. E não querendo sair.
_ O querer é o que nos faz livre para estarmos presas?
_ Condenadas a sermos livres, Phoebe.
_ Sim, Shantall, condenadas a sermos Phoebe.

Uma sorri pra outra, e ambas olham pro horizonte, e sorriem com os olhos… mais alguém se aproxima…
Mais alguém.
E o cheiro dele era bom.

A bolsa!

maio 26th, 2010

Estou fazendo uma bolsa pra mim… mas no meio do caminho tinha um monte de papel… ai ai… alguém quer me dar um presente?

Ando querendo polainas coloridas… alguém?

Estou cheia de segredos… cheinha ^^

Por isso desencanei de ficar hablando no blog!

Tem dias que eu não tenho a menor paciência comigo…
Tenho um lado odiável! Suporto, porque faz parte de mim e me dá as nuances que eu tanto acho que não tenho… mas odeio esse lado frágil e patético!
Ando dando um braço de distância dele!

So close, so far…

maio 25th, 2010

Close up…

Love sem fio.

maio 25th, 2010

Nem doeu.

maio 25th, 2010

O liquidificador.

maio 25th, 2010

Só quem faz dieta sabe que não dá pra viver sem o liquidificador…

Eu já disse não.

maio 25th, 2010

Maio

maio 25th, 2010

 

obs.:

Deus salve o Alzheimer

maio 21st, 2010

Vish, sabe aqueles dias em que você não para de desenhar… to naqueles…

Um dos meus grandes problemas, talvez o maior, são os pequenos detalhes… minha capacidade de dispersão é EMORNE, quando se trata de coisinhas… me perdi nos pistilos de uma flor hoje… =(  carbonizei comida, só pra variar.

Sunrise

maio 20th, 2010

Dia feliz às vezes é muito raro…

Silêncio

maio 18th, 2010

Silêncio mental …

Phoebe

maio 17th, 2010

Desenhando…

 

antineoplásico

maio 3rd, 2010

não basta suporte
impassível insuficiente
falta que faz essa dor espessa
de urgência eminente

não basta o suporte
o peso dos pensamentos eclode em fístulas de demência
a pele não limita o ego
o envolve com superficialidade

e ousa não entender
o invólucro da alma não é a carne,
é a arte.
o suporte, não basta!

Dissociado dissonante.

maio 3rd, 2010

Vasta desordem
caminhos, tortuosos e dissociados
mente desermada.

Soluços dissonantes
surtos, constates e decodificados
existência descoisificada.

Nestes dias, o princípio da incerteza tempera o destempero.

O relógio de plástico barato marca horas que não condizem com o tempo decorrido.

O que é ordem? O que é disciplina?
Três vezes ao dia, duas colheres de albumina?

Quem é o leão que pasta?
E quem pode fugir da desgraça de não conseguir mais distinguir o azul do verde musgo?
E quem se importa?

O caminho é tortuoso e dissociado, o eco que ouço é um grito que jamais será dado.

Mas o que incomoda, mesmo, é o relógio de plástico barato.

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