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A retrovisão.

abril 29th, 2009

A ilha Isabela arde.
Caminhando rumo às nuvens, ela esperava encontrar um caminho parecido com algum que a levasse pra um inferno estereotipado qualquer, mas se sentia subindo incorporada ao céu.
Fazia frio, envolta em brumas. quanto mais abria os olhos, menos enxergava.
Depois de uma hora e meia sobre o lombo de um cavalo “bem traiado”, uma paisagem tem que ser realmente avassaladora pra suprimir a dor nas suas próprias ancas.
A paisagem primitiva do Sierra Negra era realmente avassaladora.
Ela só conseguia pensar que o inferno ficava mais próximo do céu do que se podia imaginar.
A 1200m de altitude, um enorme caldeirão fumegante com uma cratera de 90km² que podia explodir a qualquer momento num evento devastador justifica qualquer dor.
Os cavalos não avançaram mais, o terreno escorregadio os impedia de prosseguir, não a falta de coragem.
O guia era conciso nas informações, adestrado pra dizer sempre as mesmas coisas não sabia como responder algumas das perguntas que ela fazia, talvez, geologicamente muito complexas, ou por demais específicas.
Ela cultivava um curioso interesse por vulcões, desde que numa madrugada de 1988, durante uma transmissão de ginástica olímpica das Olimpíadas de Seul, a apresentação do ginasta Dimitri Bilozertchev fora interrompida por uma chamada jornalística que mostrava o vulcão Kilawea em erupção no Hawai. Kilawae ardia debaixo d’água. Ela, ardia sob sua própria pele. Assim como Isabela la isla bela.
Olhando para o pé Sierra Negra, se lembrou dos seus próprios pés.
Muitos anos atrás, numa tarde quente, ela olhava para seus pés e pensava em algo do qual já não se lembrava, quando olhou pelo retrovisor e viu alguém correndo no meio da rua.
Era seu amigo.
Um do tipo que não havia dois.
Ela desceu do carro ainda em movimento, e desceu correndo em sua direção, se encontrando com ele num abraço de doer.
“Ai minha orelhas, acabei de dilata-las mais” – disse ele colocando as mãos nas orelhas.
E então ele lhe mostrou a língua, bifurcada, que a deixou muito muito muito  irada, pois haviam  combinado de bifurcarem suas línguas no mesmo dia…
A ideia de separar- juntos agradava a ambos de uma maneira ininteligível. Era uma dilaceração poética para eles.
“Bifurquei a uma semana, cicatrizou super bem, sem nenhum problema” ele disse e continuou

“Nossa, como você está bonita” -  ela pensou que ele só havia dito aquilo porque estavam vestindo a mesma roupa.
Ambos de camiseta camuflada, calça azul e coturnos.
O dia estava muito quente, ele estava suado, havia corrido uma quadra na subida atrás do carro segurando uma lata de tinta com a qual ia pintar o studio naquela tarde, e ainda assim seu cheiro era bom.
Na sua cabeça pedaços das frases daquela última conversa, apareciam e sumiam, como vaga-lumes.
“quero ir pra sua casa, e dormir lá, e subir nas árvores”
“você vem me buscar?”
Isabela ardia, como só as meninas sabem arder com lembranças tardias.

 

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