Parte I de II
Death Cab for Cutie – A lack of colour
Ab Imo Corde – ela disse.
E então, ela entrou no ônibus, com uma bolsa e os documentos.
Ele, entrou no carro, e percebeu no console o celular dela, esquecido, sentiu um vazio enorme, e um pressentimento ruim, ligou o carro e seguiu o ônibus até que a gasolina acabou. Ela não voltou.
…..
2 anos depois
- Alô?
- Como você está?
( silêncio, ele reconheceria aquela voz em qualquer lugar )
- Como você está?
- Do mesmo jeito como me deixou. Onde você está? Porque não responde meus emails? Porque sumiu assim? Porque nunca respondeu aos meus contatos? Porque eu nem sei onde você mora? Porque nem sei como te encontrar?
( ambos respiram fundo )
- Estou em casa.
- Eu nem sei onde fica, nem sei como lhe encontrar.
- Voltei pra cidade dos meus pais.
- Vou ai, posso? Quero te ver, conversar.
- Pode… Venha, lhe espero na rodoviária.
- Me dê o endereço.
- Não, é complicado de chegar, te espero lá.
…….
Conferiu a rota pelo google maps, programou o gps e partiu.
630km, 7h e meia depois…
…….
Lá.
O mesmo carro, no lugar indicado. Ele espera encostado. Ela chega. Ele a abraça lhe estralando as vértebras. Respirando fundo. Quase aliviado. Com raiva, com ódio, com medo, com saudade, com amor. Dava pra sentir. Eles se encaminham pra um local com umas mesinhas de plásticos, pedem uma água com gás, conversam amenidades. E quando o assunto ameno acaba. Ambos sabiam que a conversa iria começar. E ambos sabiam como iria terminar.
- Porque você foi embora?
- Eu não fui embora, eu apenas não voltei.
- Isto é ir embora.
- Se eu tivesse ido embora, eu teria feito minhas malas, pegado minhas coisas.
- Isto foi covardia. Se você tivesse feito as malas, e pegado suas coisas eu saberia que você não iria voltar, e teria feito de tudo pra que ficasse.
- Não foi premeditado. Eu apenas não senti mais a necessidade de voltar. Segui.
- Não sentiu falta de nada?
- Sim.
- De algo em mim?
- Sim.
- Porque me deixou engessado, sem ter como entrar em contato com você?
- Porque não pára com essas cobranças?
- Eu morri, todos os dias eu morri, eu acordei e estava tudo lá.
- Eu entendo.
- Não me diga que entende a minha dor, pois você nem teve a dignidade de olhá-la nos olhos.
( silêncio )
- Você me deve uma explicação.
- E eu lhe devo 24 reais e 30 centavos.
- Eu me contento com uma boa explicação.
- Eu não voltei porque não quis mais voltar. Fiquei e gostei de ficar.
- Você não pode passar pela vida dos outros assim. Você chega, bagunça tudo, deixa as coisas do jeito que quer, e vai embora. Isso foi canalhice.
- Não foi.
- Você me mostrou um outro jeito, um outro caminho, desestruturou tudo, e foi embora.
- Não fiz isso.
- Fez.
- Você está me culpando por algo que não fiz. Você que antes de me conhecer estava estagnado, parado, fleumático… eu não te mostrei nada, você que viu e se aproximou. Eu não vejo culpa nisto.
- A culpa está na falta de consideração com os sentimentos alheios. Como acha que fiquei?
- Bem, fora da casinha…
- Não, eu fiquei mal, dentro de uma casinha sem portas, sem paredes e cujos quadros pendurados eram janelas cujas vistas davam pra tudo que tinha ido embora. Eu tive que reaprender a andar sozinho, só que pra tudo onde eu olhava você estava lá.
- Viu, você não estava sozinho então…
- Estava, porque não era você que estava lá, era o vazio que você tinha deixado, porque agora, pra tudo que eu olho tem você, porque é como se eu sempre quisesse ver como você via, achar as coisas que você achava, penso, sempre… “como será que ela pensaria isso?”… Ai, é como você sempre diz, quando eu tentava esquecer, eu já tinha me lembrado.
- Me des…
- Pedir desculpas não vai adiantar mais.
- Vem, vamos embora pra casa.
- Não vou.
- Vamos, entra no carro, vamos pra casa.
- Não vou.
- Porque?
- Porque não quero.
- Você nunca vai voltar?
- Nunca voltamos, se um dia eu estiver novamente onde já estive antes, não será uma volta, pois nem eu e nem lá seremos os mesmos, nem você.
- Se não vier comigo, eu não vou mais esperar que volte.
- Não espere.
Neste momento, seu corpo pareceu pesar 200 kilos, dobrou-se, abraçou as pernas e chorou com o rosto encaixado nos joelhos.
- Você nem me perguntou como eu estou. Não me perguntou o que tenho feito. Nem se importou em saber o que tenho passado neste tempo que passou.
- E VOCÊ PERGUNTOU? – diz berrando, com o rosto avermelhado chorando lágrimas nunca imaginadas – EU CHOREI ATÉ VOMITAR, MEUS AMIGOS ME RIDICULARIZARAM, MINHA FAMÍLIA SE PREOCUPOU, MINHA MÃE ME DEU DE COMER NA BOCA. TUDO PORQUE VOCÊ ME ENSINOU COMO ERA NÃO ESTAR MAIS SOZINHO! E ENTÃO FOI EMBORA. VOCÊ ME DESCONSTRUIU PRA QUE EU ME TORNASSE QUEM EU QUERIA SER, ME DESADAPTOU DO MUNDO MEDÍOCRE EM QUE EU VIVIA E ME DEVOLVEU PRA ELE, VOCÊ ME MACHUCOU, EU ESTOU EM CARNE VIVA AINDA, AINDA, OLHA PRA MIM, É COMO VOCÊ DIZ, EU ESTOU VIVENDO COMO NO FILME O DIA DA MARMOTA, AINDA É O DIA EM QUE VOCÊ FOI EMBORA, E TODO DIA QUANDO ACORDO, AINDA É O DIA EM QUE VOCÊ FOI EMBORA.
Ela se levanta da mesa, e começa a caminhar. Ela tinha passarinhos azuis nos pés, ele notou e disse sussurando…Somewhere over the rainbow… Bluebirds fly… Birds fly over the rainbow…Why then, oh why can’t I?” Ela continuou andando…
- VAI MESMO, VOCÊ É BOA NISTO.
Ela foi embora, e ele também.
Ele haveria de ficar bom nisto.
….
Ele era o Senhor Todo Torto.
Aquela cidade grande era perfeita pra ele se esconder.
Sua vida era do trabalho pro aeroporto, do aeroporto pra casa, da casa pro trabalho.
Drogas, putaria, vida comum, gente comum, cansaço, depressão, tristeza, rotina, falta de grana, falta de esperança, sexo fácil, e no final das contas, sozinho.
Então, no mesmo prédio, ela.
Diferente.
Não dizia oi, mas sorria.
Não dizia tchau, mas olhava.
Não perguntava nada, apenas abria a porta, carregava aquele corpo bêbado pro sofá, se assegurava de que ele estaria bem, trancava a sacada, tirava a chave da porta, colocava no alto da estante e ia embora pro apartamento ao lado.
Ele sempre cruzava com ela no saguão, ela saindo pela manhã, cheia de bolsas e coisas, ele chegando com a piranha da vez.
Ele sempre cruzava com ela na entrada do elevador, ela chegando, cheia de coisas, ele saindo pra balada da vez.
Algumas vezes, ele escutava vozes de pessoas, rindo, falando, ele queria saber o que ela falava, com quem ela andava, abria a porta da varanda, e colocava a cabeça o mais perto possível, pra escutar sem ser notado.
Ela tinha medo da chuva. E dos raios. E tinha medo de terremotos.
Quando a cidade tremeu, ela tremeu também.
No 14º andar daquele prédio, ele também tremeu.
Ambos saíram dos seus apartamentos, se olharam e ele disse:
- Você sentiu?
- Sinto.
Ambos se sentaram e conversaram longamente sobre medos e terremotos. Sem perguntarem seus nomes.
Um dia. Ele resolveu agradecer a menina sem nome.
- Obrigado por nunca fazer perguntas. – disse ele lhe oferecendo um embrulho pequeno com um cd dentro. Summit, dizia a capa. – “Do cara da porta ao lado.”
- Obrigada, não precisa agradecer.
Se tornou sua amiga, sua confidente, sua ajuda e seu despertar. Ele estava livre pra estar preso por escolha, pela primeira vez na vida.
Ele podia sair, mas queria ficar.
Eles assistiam os filmes que ela dizia. Ela cozinhava as coisas que ele pedia. Ele viajava e trazia coisas que ele sabia que ela iria gostar. Ela nunca gostava. Eles riam.
Um dia, longe, muito longe, ele ligou, no meio da noite.
- Acho que eu te amo.
- Acho que eu só amo o Sinatra.
- Não quero mais este trabalho, não quero mais viajar, não quero mais ficar com esses idiotas drogados, agora eles me irritam, me envergonham, me atrasam.
- Mude.
- Vou pegar o próximo voo, pegue um táxi, vá me esperar.
- Certo, me avise o horário.
- Tenho coisas pra lhe falar, e não devem ser ditas assim.
…
- Eu acho que eu te amo.
- Isto me parece bom.
- Lá em Poá, percebi o quanto eu penso em você, o quanto quero ficar com você, o quanto conviver com você me fez bem. Me tirou de dentro de mim, eu progredi pela primeira vez na vida, eu me sinto alguém, eu sei quem eu sou, eu sei o que eu quero, eu sei. Me sinto vivo.
- Mas você sabe que isto não vem de mim, isto está em você. É que meu silêncio te deu tempo pra que você possa se escutar.
- Não é só isso, eu te amo, e eu preciso te dizer isso.
- O amor nunca deve ser declarado, deve ser suspeito.
- Acha que é loucura minha? Que estou confundindo as coisas? Eu nem consigo mais ficar com minha namorada, nem consigo ficar com mais ninguém, nem que você não queira nada comigo, essa é a minha verdade agora. Acha que é loucura minha?
- Não sei, amor platônico talvez. O amor é a mais doce das loucuras.
- Não é platônico.
( não era platônico )
…
Largou da namorada, e as outras, e as outras coisas, escutou absurdos dos amigos, escondeu da família, mudou de apartamento, aprendeu a cozinhar, levava as roupas pra lavanderia, fazia feira de domingo pela manhã, quando viajava só pensava em voltar, quando voltada só pensava em ficar. Juntou dinheiro, trocou de carro, comprou um apartamento na planta, comprou a guitarra dos seus sonhos e leu todos os livros que estavam por ler. Passou no vestibular pra UFPR, voltou a estudar, conheceu gente nova. Aprendeu a fazer creme Brulee, aprendeu a fazer pesto, aprendeu que ela gostava de chocolate com Syrah, e que odiava Malbec, ela achava muito encorpado, e dizia que não combinava com nada. Ensinou-a sobre marketing, embora ela não estivesse nem ai, ela escutava, ela era boa nisso. Aprendeu que ela odiava public displays of affection, e que achava muito brega andar de mãos dadas. O tempo passou leve, não doeu quase nada. E quando algo doía, ela sabia como consertar.
…
O menino mais lindo do prédio se mudou pro apartamento da menina mais feia do mundo.
…
Então, assim começou o que nunca deveria ter terminado do jeito como terminou.
E ela aprendeu, que amigos são pra sempre, amores não.
Ela já sabia disso, no fundo ela já sabia, mas tudo bem, as histórias pra terem um fim, precisam de um começo. Ela era escritora, precisava de uma boa história.
O pecado mora ao lado.
Death Cab for Cutie – I will possess your heart
0bs.: Terremoto em Curitiba



































