w w w . s h a n t a l l . c o m

‘Vulsus’

Embarcações fantasmas.

maio 28th, 2014

Ah, e então…
o dia que haveria de nunca chegar havia passado.
Aquele dia, aquele passado,
aquele futuro do passado,
passado.
Havia de chegar,
havia chegado.
Um pouco da luz de ontem,
ainda chegando aos olhos no lusco-fusco que já cobria o céu de noite.
Fruto do tempo não-concebido.
E quando chegou,
não havia ninguém esperando no porto, não havia mais ninguém.

A embarcação atracou no porto, como se fosse uma lembrança que não queria ser esquecida.
Um barco-dor-fantasma.
âncoras-garras-retráteis-de-gato – consegue entender?

As ondas mais fortes já sabidas arrebentavam/arrebentaram no casco,
- no asco-das-horas-mal-passadas -
As ondas mais fortes,  não foram capazes de movê-lo,
nem um pouco que fosse.
Nem o UM POUCO, que fosse.
Fóssil atemporal incrustado no casco-caixa-craniana.
Ondas vindas de um passado muito distante.
Chegando feito tsunami em uma praia
muitas horas depois do terremoto.
HOULÁ DA BARCA, HOULÁ, HOU!
Já não havia nada para ser destruído.
Nada que já não tivesse sido abandonado, por certo, esquecido.
Deixado para trás, atrelados feito os elos daqueles outros-eus-âncora.

A bússola desorientada, o astrolábio desorientado, o sextante desorientado.

Nenhum limite configurado no quadro fronteira.
Os limites, todos ou quaisquer, ficaram para trás, medidos, meticulosamente.
Tudo à frente é destino.
Destino é mau tempo.
E tudo do todo que vem do passado é caminho trilhado, memória sem novidade.
Inodora e insípida.

“Capitão, o corpo da embarcação jaz no fundo daquele mar.”
Daquele mar que já não é este e jamais será outro que não aquele que… foi.
“Entende, Capitão?”
O futuro chegou, passou pelas suas mãos.
Afundou. Mas a fé em um desejo prossegue acreditando em fantasmas.
Dor-fantasma.

A embarcação atracou no porto, como se fosse uma lembrança que não queria ser esquecida.

Que lembrança? Quais lembranças?
O horizonte estava claro, era uma faixa clara,
ardentemente clara, com uma tempestade negra,
contrastante, sobre o mar.
O futuro do passado, passou por nós.
Poderíamos concluir, de maneira assertiva,
que chegou a hora de abandonar o barco, e largar o timão.
Mas não há mais barco, tampouco timão.

“Capitão, nunca houve.

Nunca houve um barco, nunca houve um terremoto, nunca houve um naufrágio, nunca houve um Capitão.

Tudo
era ilha,
e mar para todos os lados.

(com cuidado, o senhor a quem chamavam de Capitão, foi encaminhado, segurado pelas mãos, até um outro aposento)

Nunca houve, um Capitão.

P de pantomina

novembro 30th, 2013

A uma palavra
E o tudo  seria esquecido
Não
A uma palavra
E o tudo se daria como haveria de ter sido
Não, Não;
O  jamais acontecido
O intromissus
Não
A uma palavra
O um elo
Não
O um sentimento
A uma intensidade
Não
O um coração batendo
Há um, e só pode haver um.
O um.

630km, 7h e meia depois…

dezembro 6th, 2012

Parte I de II

Death Cab for Cutie – A lack of colour


Ab Imo Corde – ela disse.

E então, ela entrou no ônibus, com uma bolsa e os documentos.
Ele, entrou no carro, e percebeu no console o celular dela, esquecido, sentiu um vazio enorme, e um pressentimento ruim,  ligou o carro e seguiu o ônibus até que a gasolina acabou. Ela não voltou.

…..

2 anos depois

- Alô?
- Como você está?
( silêncio, ele reconheceria aquela voz em qualquer lugar )
- Como você está?
- Do mesmo jeito como me deixou. Onde você está? Porque não responde meus emails?  Porque sumiu assim? Porque nunca respondeu aos meus contatos? Porque eu nem sei onde você mora? Porque nem sei como te encontrar?

( ambos respiram fundo )

- Estou em casa.
- Eu nem sei onde fica, nem sei como lhe encontrar.
- Voltei pra cidade dos meus pais.
- Vou ai, posso? Quero te ver, conversar.
- Pode… Venha, lhe espero na rodoviária.
- Me dê o endereço.
- Não, é complicado de chegar, te espero lá.

…….

Conferiu a rota pelo google maps, programou o gps e partiu.
630km, 7h e meia depois…

…….

Lá.

O mesmo carro, no lugar indicado. Ele espera encostado. Ela chega. Ele a abraça lhe estralando as vértebras. Respirando fundo. Quase aliviado. Com raiva, com ódio, com medo, com saudade, com amor. Dava pra sentir. Eles se encaminham pra um local com umas mesinhas de plásticos, pedem uma água com gás, conversam amenidades. E quando o assunto ameno acaba. Ambos sabiam que a conversa iria começar. E ambos sabiam como iria terminar.

- Porque você foi embora?
- Eu não fui embora, eu apenas não voltei.
- Isto é ir embora.
- Se eu tivesse ido embora, eu teria feito minhas malas, pegado minhas coisas.
- Isto foi covardia. Se você tivesse feito as malas, e pegado suas coisas eu saberia que você não iria voltar, e teria feito de tudo pra que ficasse.
- Não foi premeditado. Eu apenas não senti mais a necessidade de voltar. Segui.
- Não sentiu falta de nada?
- Sim.
- De algo em mim?
- Sim.
- Porque me deixou engessado, sem ter como entrar em contato com você?
- Porque não pára com essas cobranças?
- Eu morri, todos os dias eu morri, eu acordei e estava tudo lá.
- Eu entendo.
- Não me diga que entende a minha dor, pois você nem teve a dignidade de olhá-la nos olhos.
( silêncio )
- Você me deve uma explicação.
- E eu lhe devo 24 reais e 30 centavos.
- Eu me contento com uma boa explicação.
- Eu não voltei porque não quis mais voltar. Fiquei e gostei de ficar.
- Você não pode passar pela vida dos outros assim. Você chega, bagunça tudo, deixa as coisas do jeito que quer, e vai embora. Isso foi canalhice.
- Não foi.
- Você me mostrou um outro jeito, um outro caminho, desestruturou tudo, e foi embora.
- Não fiz isso.
- Fez.
- Você está me culpando por algo que não fiz. Você que antes de me conhecer estava estagnado, parado, fleumático… eu não te mostrei nada, você que viu e se aproximou. Eu não vejo culpa nisto.
- A culpa está na falta de consideração com os sentimentos alheios. Como acha que fiquei?
- Bem, fora da casinha…
- Não, eu fiquei mal, dentro de uma casinha sem portas, sem paredes e cujos quadros pendurados eram janelas cujas vistas davam pra tudo que tinha ido embora. Eu tive que reaprender a andar sozinho, só que pra tudo onde eu olhava você estava lá.
- Viu, você não estava sozinho então…
- Estava, porque não era você que estava lá, era o vazio que você tinha deixado, porque agora, pra tudo que eu olho tem você, porque é como se eu sempre quisesse ver como você via, achar as coisas que você achava, penso, sempre… “como será que ela pensaria isso?”… Ai, é como você sempre diz, quando eu tentava esquecer, eu já tinha me lembrado.
- Me des…
- Pedir desculpas não vai adiantar mais.
- Vem, vamos embora pra casa.
- Não vou.
- Vamos, entra no carro, vamos pra casa.
- Não vou.
- Porque?
- Porque não quero.
- Você nunca vai voltar?
- Nunca voltamos, se um dia eu estiver novamente onde já estive antes, não será uma volta, pois nem eu e nem lá seremos os mesmos, nem você.
- Se não vier comigo, eu não vou mais esperar que volte.
- Não espere.

Neste momento, seu corpo pareceu pesar 200 kilos, dobrou-se, abraçou as pernas e chorou com o rosto encaixado nos joelhos.

- Você nem me perguntou como eu estou. Não me perguntou o que tenho feito. Nem se importou em saber o que tenho passado neste tempo que passou.
- E VOCÊ PERGUNTOU? – diz berrando, com o rosto avermelhado chorando lágrimas nunca imaginadas – EU CHOREI ATÉ VOMITAR, MEUS AMIGOS ME RIDICULARIZARAM, MINHA FAMÍLIA SE PREOCUPOU, MINHA MÃE ME DEU DE COMER NA BOCA. TUDO PORQUE VOCÊ ME ENSINOU COMO ERA NÃO ESTAR MAIS SOZINHO! E ENTÃO FOI EMBORA. VOCÊ ME DESCONSTRUIU PRA QUE EU ME TORNASSE QUEM EU QUERIA SER, ME DESADAPTOU DO MUNDO MEDÍOCRE EM QUE EU VIVIA E ME DEVOLVEU PRA ELE, VOCÊ ME MACHUCOU, EU ESTOU EM CARNE VIVA AINDA, AINDA, OLHA PRA MIM, É COMO VOCÊ DIZ, EU ESTOU VIVENDO COMO NO FILME O DIA DA MARMOTA, AINDA É O DIA EM QUE VOCÊ FOI EMBORA, E TODO DIA QUANDO ACORDO, AINDA É O DIA EM QUE VOCÊ FOI EMBORA.

Ela se levanta da mesa, e começa a caminhar. Ela tinha passarinhos azuis nos pés, ele notou e disse sussurando…Somewhere over the rainbow… Bluebirds fly… Birds fly over the rainbow…Why then, oh why can’t I?” Ela continuou andando…

- VAI MESMO, VOCÊ É BOA NISTO.

Ela foi embora, e ele também.
Ele haveria de ficar bom nisto.

….

Ele era o Senhor Todo Torto.
Aquela cidade grande era perfeita pra ele se esconder.
Sua vida era do trabalho pro aeroporto, do aeroporto pra casa, da casa pro trabalho.
Drogas, putaria, vida comum, gente comum, cansaço, depressão, tristeza, rotina, falta de grana, falta de esperança, sexo fácil, e no final das contas, sozinho.
Então, no mesmo prédio, ela.
Diferente.
Não dizia oi, mas sorria.
Não dizia tchau, mas olhava.
Não perguntava nada, apenas abria a porta, carregava aquele corpo bêbado pro sofá, se assegurava de que ele estaria bem,  trancava a sacada, tirava a chave da porta, colocava no alto da estante e ia embora pro apartamento ao lado.
Ele sempre cruzava com ela no saguão, ela saindo pela manhã, cheia de bolsas e coisas, ele chegando com a piranha da vez.
Ele sempre cruzava com ela na entrada do elevador, ela chegando, cheia de coisas, ele saindo pra balada da vez.
Algumas vezes, ele escutava vozes de pessoas, rindo, falando, ele queria saber o que ela falava, com quem ela andava, abria a porta da varanda, e colocava a cabeça o mais perto possível, pra escutar sem ser notado.
Ela tinha medo da chuva. E dos raios. E tinha medo de terremotos.
Quando a cidade tremeu, ela tremeu também.
No 14º andar daquele prédio, ele também tremeu.
Ambos saíram dos seus apartamentos, se olharam e ele disse:
- Você sentiu?
- Sinto.
Ambos se sentaram e conversaram longamente sobre medos e terremotos. Sem perguntarem seus nomes.
Um dia. Ele resolveu agradecer a menina sem nome.

- Obrigado por nunca fazer perguntas. – disse ele lhe oferecendo um embrulho pequeno com um cd dentro. Summit, dizia a capa. – “Do cara da porta ao lado.”
- Obrigada, não precisa agradecer.

Se tornou sua amiga, sua confidente, sua ajuda e seu despertar. Ele estava livre pra estar preso por escolha, pela primeira vez na vida.
Ele podia sair, mas queria ficar.
Eles assistiam os filmes que ela dizia. Ela cozinhava as coisas que ele pedia. Ele viajava e trazia coisas que ele sabia que ela iria gostar. Ela nunca gostava. Eles riam.

Um dia, longe, muito longe, ele ligou, no meio da noite.
- Acho que eu te amo.
- Acho que eu só amo o Sinatra.
- Não quero mais este trabalho, não quero mais viajar, não quero mais ficar com esses idiotas drogados, agora eles me irritam, me envergonham, me atrasam.
- Mude.
- Vou pegar o próximo voo, pegue um táxi, vá me esperar.
- Certo, me avise o horário.
- Tenho coisas pra lhe falar, e não devem ser ditas assim.

- Eu acho que eu te amo.
- Isto me parece bom.
- Lá em Poá, percebi o quanto eu penso em você, o quanto quero ficar com você, o quanto conviver com você me fez bem. Me tirou de dentro de mim, eu progredi pela primeira vez na vida, eu me sinto alguém, eu sei quem eu sou, eu sei o que eu quero, eu sei. Me sinto vivo.
- Mas você sabe que isto não vem de mim, isto está em você. É que meu silêncio te deu tempo pra que você possa se escutar.
- Não é só isso, eu te amo, e eu preciso te dizer isso.
- O amor nunca deve ser declarado, deve ser suspeito.
- Acha que é loucura minha? Que estou confundindo as coisas? Eu nem consigo mais ficar com minha namorada, nem consigo ficar com mais ninguém, nem que você não queira nada comigo, essa é a minha verdade agora. Acha que é loucura minha?
- Não sei, amor platônico talvez. O amor é a mais doce das loucuras.
- Não é platônico.

( não era platônico )

Largou da namorada, e as outras, e as outras coisas, escutou absurdos dos amigos, escondeu da família, mudou de apartamento, aprendeu a cozinhar, levava as roupas pra lavanderia, fazia feira de domingo pela manhã, quando viajava só pensava em voltar, quando voltada só pensava em ficar. Juntou dinheiro, trocou de carro, comprou um apartamento na planta, comprou a guitarra dos seus sonhos e leu todos os livros que estavam por ler. Passou no vestibular pra UFPR, voltou a estudar, conheceu gente nova. Aprendeu a fazer creme Brulee, aprendeu a fazer pesto, aprendeu que ela gostava de chocolate com Syrah, e que odiava Malbec, ela achava muito encorpado, e dizia que não combinava com nada. Ensinou-a sobre marketing, embora ela não estivesse nem ai, ela escutava, ela era boa nisso. Aprendeu que ela odiava public displays of affection, e que achava muito brega andar de mãos dadas. O tempo passou leve, não doeu quase nada. E quando algo doía, ela sabia como consertar.

O menino mais lindo do prédio se mudou pro apartamento da menina mais feia do mundo.

Então, assim começou o que nunca deveria ter terminado do jeito como terminou.
E ela aprendeu, que amigos são pra sempre, amores não.
Ela já sabia disso, no fundo ela já sabia, mas tudo bem, as histórias pra terem um fim, precisam de um começo. Ela era escritora, precisava de uma boa história.
O pecado mora ao lado.

Death Cab for Cutie – I will possess your heart

0bs.: Terremoto em Curitiba


Sem perceber

novembro 26th, 2012
De tanto olhar
e ver,
medir, sem mais compreender,
parou de enxergar.
Começou a perder.
Porque ao tocar
Com a ponta dos dedos
Sem mais estar perto para pegar,
Afastou.
Sem perceber… sem perceber

E quando ele entrou na sala, ninguém percebeu o quanto ele estava perturbado.
Pudera… ele havia aprendido a dissimular tão bem a própria satisfação e a aparente normalidade que ninguém haveria de perceber, jamais, toda sua inquietação.

“Tudo bem.” pensava ele.

Estaria bem se tudo não estivesse exatamente como deveria estar.

Ele havia chegado lá. Ele tinha seu emprego. Ele tinha status. Ele tinha uma bela esposa, inteligente, espirituosa e embora não fosse o que ele havia sonhado,  ela era perfeita.

Se ao menos ele não se lembrasse mais o que havia sonhado. Mas os sonhos estavam ali, como lava, densos, borbulhantes, incandescentes. Diferentes agora.

“Ela nem precisava ser perfeita, ela só precisava ter aquela coisa provocante. Aquela coisa que, certamente, me faria acordar, a cada dia, em um dia diferente.”

Ele gostava do trabalho dele, gostava das coisas que ele proporcionava às pessoas, ele gostava de fazer a diferença a cada instante. E ninguém haveria de perceber que algo o incomodava.

Quando se usa uma roupa de baixo nova, muitas vezes o elástico aperta onde deveria ser bem confortável, mas o tempo passa e o elástico perde a elasticidade e o conforto vem.  O tempo haveria de lacear seus desejos, e toda aquela monotonia se tornaria confortável, pensava ele… e ao pensar, ele se desesperava.

Todavia, mais um dia.

Talvez ele devesse comprar uma Norton com sidecar, e convidar ela pra viajar. Ela aceitaria, ele sabia disso, ela iria encher o saco, mas aceitaria, ela não ia querer dormir em uma barraca em um camping qualquer pelo caminho, mas ela aceitaria..

Naquela manhã uma frase…

“No! No different. Only different in your mind. You must unlearn what you have learned.”  era uma frase do Yoda escrita na camiseta de uma menina que usava meias azuis e sandálias de plástico. Ela lhe sorriu um sorriso largo, e ele lhe sorriu um meio sorriso, tímido e empoeirado, há muito guardado entre as páginas de um livro qualquer guardado em uma gaveta qualquer, cuja cena, ali descrita, tão parecida com aquela acontecida, lhe fizera rir aquele mesmo velho sorriso.

Naquele dia, novamente, ele adentrou seu local de trabalho, e ninguém percebeu aquele meio sorriso no canto da boca. Nada havia mudado, nem os móveis haviam mudado de lugar.  Todavia mais um dia. Havia escutado as mesmas músicas, transado do mesmo jeito, acordado do mesmo lado da cama, assistido pela milésima vez o mesmo filme até pegar no sono, e tudo estava tão bem quanto deveria estar se assim não estivesse.

Os sonhos estavam todos ali, e enquanto ele trabalhava, e enfrentava as mesmas surpresas de sempre, as mesmas dificuldades de sempre, e ganhava os mesmos louros das mesmas mesmas vitórias de sempre. Uma coisa, apenas uma coisa havia mudado……….  o meio sorriso.

Aquele meio sorriso no canto da boca, fizera com que sua esposa notasse algo diferente nele.

“O que será que aconteceu?” pensou ela… acordando todo dia do mesmo lado da cama, sem se importar com isso.

Nada a incomodava, tudo estava muito bem, tudo estava tão bem quanto deveria estar. Todos os móveis nos mesmos lugares, todos os sentimentos alojados perfeitamente entre uma tarefa e outra. Sentimentos comedidos de uma pessoa comedida, com medidas exatas, perfeitas, tudo em seu lugar.

A única coisa que a incomodava era aquele meio sorriso… Será que ele tinha um outro alguém? Será que ele havia transado com ela pensando em outra? Será que ele estaria sendo assediado pela chefe? Será que ele estaria planejando deixá-la? O que seria aquele meio sorriso? Qual a causa? O que havia ali agora que não estava ali antes?

Quando ele voltou pra casa, aquele meio sorriso ainda estava lá.

Ele contou sobre o dia de trabalho e ela contou algumas novidades enquanto colocava os utensílios na mesa, ele fez as mesmas coisas de sempre e ela fez as mesmas coisas de sempre… Ela fingiu que aquele meio sorriso não a incomodava com medo de saber a causa daquilo que ela consideraria como um incidente e ele fingiu não se refugiar em sua mente sonhadora pra não ser afetado por aquela rotina descolorida e saturada de sinapses que se repetiam como déjà vu.

Então ambos foram para a cama, e escutaram as mesmas músicas, transaram da mesma maneira, falaram as mesmas coisas e assistiram um dos mesmos filmes de sempre.

No dia seguinte… quando ele entrou na sala, ninguém percebeu o quanto ele estava perturbado. Mas todos começaram a perceber que aquele meio sorriso no canto da boca estava lá. E isso começou a perturbar cada um ao seu redor.

“No. There is another…” disse Yoda.

ab incunabulis

outubro 1st, 2011

 

a alma humana
em desuso
se afoga

o corpo desnudo
no mar da usura

logo, despida de ternura
jaz na terra
em  lento desalento

a inocência bruta,
que em si, se encerra

*foto por Marcel Savio Marino

O urso de pelúcia

junho 10th, 2011

O primeiro entardecer tristonho que  tive, se deu por causa de um urso, de pelúcia laranja vagabunda com uma gravata xadrez horrível, recheado mal e porcamente com bolinhas de isopor que faziam um barulho irritante.
Eu, estava em frente de casa, com um vestido amarelo pavoroso.  que ia até o meio das canelas,  um par de sandálias Ortopé, um relógio de plástico ordinário, e o urso… Ah, o maldito urso de pelúcia laranja vagabunda com uma gravata xadrez horrível.
Uma menina que estava passando se sentou ao meu lado, no degrau da área de casa onde eu me encontrava sentada, provavelmente entediada. O tédio é um fator constante e precoce em minha digníssima existêncis..
A menina que tinha cara de porquinho da índia, por causa dos incisivos finos e compridos, elogiou meu urso… aquele urso de pelúcia laranja vagabunda com uma gravata xadrez horrível, e me pediu pra pegá-lo. Eu, boazinha como já fui um dia, e mongolóide como não consigo deixar de ser… deixei!
Conversamos durante algum tempo, talvez nem tenha passado de 5 minutos, mas lembrando hoje, parece ter sido muito, muito tempo. Até que ela apontou pra onde morava, na quadra ao lado, e me pediu pra levar o urso pra casa dela, e eu? Deixei… claro!
Ela disse que no dia seguinte, às 6 horas da tarde, me traria o urso de volta. Eu disse pra ela que não sabia ver horas no meu relóginho de plástico ordinário, e ela me mostrou onde os ponteirinhos estariam quando fosse 6 horas.
Aos 5 anos de idade, 5 meses, 3 dias e 18 horas e um minuto, eu fui passada pra traz pela primeira vez na vida.
Quando os ponteiros chegaram ao devido lugar, a menina não apareceu. Nem ela, nem meu urso de pelúcia laranja vagabunda com uma gravata xadrez horrível.
Naquele instante eu percebi, que apesar da pelúcia ser vagabunda, dele ser laranja, e fazer um barulho de bolinhas de isopor irritante, sim, eu gostava dele… pelo simples fato dele ser MEU.
E pela primeira vez na vida, eu atravessei uma rua.
Andei meia quadra, cheguei a esquina, e atravessei outra rua. Fui até a casa da menina que tinha cara de porquinho da índia, sem nem me lembrar o nome dela… para buscar o meu lindo urso de pelúcia laranja.
A mãe dela me deu o urso, e a menina me acompanhou até em casa, e nos tornamos amigas…
Anos depois, em frente ao pelotão de fuzilamento… eu achei meu urso, todo carcomido, sujo, imundo… com feses de ratos, e teias de aranhas, jogado no sótão da casa da minha avó.
Tão sujo e carcomido, quanto todas as minhas lembranças de infância.
Acho que minha infância, apesar de rica em acontecimentos, era como o meu urso… laranja, vagabunda, ordinária, recheada de bolinhas de isopor que faziam um barulho irritante.


 

Lidando com a insanidade…

abril 5th, 2011

Esculpi um totem em gelo translúcido em meio a uma tempestade de granizo.
E pretendi não me ferir com os estilhaços.
Ah, como pretendi.

Simulacros abaixo de zero, sensíveis ao calor humano.
Erro, eu erro, berro, e ainda há o escárnio pra rejuntar os segundos que, a cada segundo, ficam mais curtos e com mais espaços entre si.

Um vácuo temporal, um átmo suspenso por grandes ganchos de aço cirúrgico.

Há um tempo atrás eu tinha asas, metálicas, com filigranas delicadíssimas, e extremamente aptas a decaptação.

Há um tempo atrás, eu tinha tempo.

Há um tempo atrás eu tinha.

E agora eu esculpo totens sob chuva de pedra.

E agora eu?

Eu pretendi não me machucar com os estilhaços.

Aquela vadia disse pra que eu não falasse de mim, pra que falasse da natureza, eu sou minha natureza, o EU é minha paisagem mais violenta, mais cheia de contraste, mais zen e mais perturbada.

Mais perturbadora.

Translúcida.

Eu é que transponho minha lucidez. Dez, entre dez ideias que compõe uma ilusão são de fato, reais, mais reais que qualquer realidade aparente e empírica.

E eu queria apenas ser o centro avante do meu time de totens translúcidos.

Mentira, mentira, eu pretendia apenas lhe ferir com os estilhaços.

Estão ouvindo as sirenes?

tipo post-its

giz pastel oleoso + papel velhusco = diga que entende

minhas máscaras são conhecidas
nós desatados
conceitos estremecidos
noites mal dormidas

minhas máscaras carcomidas
nos dasatando
laços esquecidos
noites mal dormidas

e de noite em noite
açoite eufórico
na alma se dá

e de dia em dia
eufórica alegoria
da penumbra não retornará

e assim nas calhas de roda
nada gira
nada entretém

e eu escondi, atrás de mais uma máscara
o quanto, na ve3rdade, não doeu.

Di-alog-o

maio 31st, 2010

_ Oi – disse ele.
_ Não! – ela disse
_ Tudo bem?
_ A barca já chegou… Hou da barca! Houlá! Hou! Haveis logo de partir?
_ Qual seu nome?
_ Trinta e sete pessoas ainda cabem na barca.
_ Você poderia me dizer seu nome?
_ Eu tinha um cachorro, e ele tinha três patas.
_ Ele se acidentou?
_ Elas se chamavam Chandra, Alisha e Devandra.
_ Não entendi.
_ Eram três patinhas lindas que adoravam nadar.
_ Eram três patas, fêmeas?
_ Eram sulistas. Traziam bodoque à tira colo.
_ As patas eram sulistas?
_ As fêmeas. Que cheiravam a lombo de cavalo.
_ Do que está falando?
_ Estou falando de você, e dos seus amigos.
_ Mas eu estou só.
_ Eles também acham que estão. Não é porque vocês não conseguem se ver que estão sozinhos.
_ Você esta falando comigo? Olhe pra mim.
_ Estou falando de você.
_ Com quem?
_ Com Jó e seu escravos.
_ Onde eles estão?
_ Jogando caxangá.
_ Você joga também?
_ Jogo, sou capitã do meu time.
_ Não entendi.
_ Sabia que se você olhar bem de perto a palma da sua mão com a luz/não-luz do lusco-fusco, você pode ver cordões de nível na palma das suas mãos?
_ Me ensina?
_ O caminho não se ensina, se desenha, se cria, passo-a-passo, com intervalos e interlúdios, lúdicos não desvendados.
_ Eu quero saber seu nome.
_ Dados, estou dizendo, dados, apenas dados.
_ Sim, eu estou aqui pra colher seus dados.
_ Eu não planto mais dados, eu planto olhos de guaraná.
_ Como assim?
_ Come? Mastigue bem antes de engolir, as gigantes vermelhas e as anãs brancas se fagocitam numa dança mortal.
_ Você sabe o seu nome?
_ Eu sei quando me chamam pra ir almoçar, eu sei quando me chamam pra tomar banho, eu sei meu nome.
_ Seu nome é Phoebe?
_ Meu nome Phoebe não é, eu sou aquela que tem seis dedos em cada pé.
_ Na sua ficha diz Phoebe.
_ No seu crachá diz “visitante”.
_ Sim, eu não sou residente, eu sou visitante. Você entende o que eu estou fazendo aqui?
_ Entendo, você é um visitador… vistador… vidi… que vê com frequência.
_ Sim, é meu trabalho, ver com frequência pessoas como você.
_ Existem outras?
_ Sim.
_ como eu?
_ Sim.
_ Elas também estão em barcos?
_ Sim, como você.
_ Naus, que naus…
Naus partem — naus não, barcos, mas as naus estão em mim,
E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta,
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta,
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida…
_ Quando chegou aqui, disse que seu nome era Phoebe, você tem que se lembrar do seu nome, preciso preencher sua ficha, e tentar encontrar sua família.
_ Quando? Ontem. Ontem eu cheguei aqui, mas não havia nada além de uma escada, subi a escala, e no alto dela havia um praticável, que girava e girava.
_ Você se lembra de algo sobre sua família?
_ Onde levaram minha roupa de bailarina? Eu tinha asas ontem, e elas estavam aptas a decaptação, afiadas e polidas, reluzentes e precisas.
_ Você tem uma cicatriz grande no abdome, sabe dizer o que aconteceu?
_ Foi um espetáculo. Eu era bailarina do Circo Fernando, Lautrec ele me pintou, me disse que pintou, ele estava na platéia aquele dia, e sobre o cavalo eu percorri o picadeiro, com uma destreza nunca antes experimentada por mim, e no número seguinte, eu estava partida em duas pelo mágico. Bipartida, bipolarizada, bifurcada…

_ Doutor ela não fala coisa com coisa.
_ Ainda assim é bom de conversar com ela. Alguém conseguiu tirar-lhe alguma informação não fantasiosa?
_ Não, o mais próximo da realidade que ela chega é quando fala de barcos, que levam insanos que estão em busca da razão.
_ A loucura é um estágio de liberdade tão abrangente que os que flertam com ela se tornam prisioneiros da mais absoluta liberdade, da única prisão sem jaulas, da mente, que como um barco cheio de insanos procurando por seu lugar, sempre os tem, os mantém embarcados confiando-lhes um outro lugar que não o seu.
_ Doutor, o caso dela é irreversível?
_ Não posso precisar. Ela parece confortável onde está. É uma realidade tão fragmentada, multifacetada e transcendida, que chego a pensar que loucos estamos nós, todos vestidos de brancos, vivendo sob a égide dos ponteiros do relógio.
_ É, Doutor, meu estágio por hoje terminou.
_ Pode se retirar, mas não esqueça de deixar seu relatório sobre minha mesa.

Enquanto isso, uma menina vestida de bailarina, corria sobre os campos coloridos entrecortados por cordões de nível iluminados pela luz/não-luz num lusco-fusco, a segurar em uma das mãos a ponta da saia e na outra um balão de gás.

_ Que bom que chegou.
_ Estamos bem agora, você pode parar de se esconder.
_ Eles já foram?
_ Sim.
_ Estamos sozinhas?
_ Sempre estamos sozinhas.
_ O que eles disseram desta vez?
_ Que não sabem se é irreversível.
_ Enquanto for assim, estaremos seguras.
_ Eu lhe protejo. Eles acreditam em tudo que eu digo.
_ Eles sempre acreditam.
_ Eles acreditam em tudo que conseguem enxergar, tocar, cheirar e provar…
_ É, eles sempre acreditam.
_ Eles acham que somos loucas.
_ Pra eles, somos.
_ A diferença entre nós e eles, é que eles vivem do lado de fora, achando que não podemos sair, e nós vivemos do lado de dentro, sabendo que eles não sabem que podem entrar. E não querendo sair.
_ O querer é o que nos faz livre para estarmos presas?
_ Condenadas a sermos livres, Phoebe.
_ Sim, Shantall, condenadas a sermos Phoebe.

Uma sorri pra outra, e ambas olham pro horizonte, e sorriem com os olhos… mais alguém se aproxima…
Mais alguém.
E o cheiro dele era bom.

O Pica-Fumo.

abril 29th, 2010

O Pica-fumo, era o sapateiro que morava na quadra onde cresci.
Ele passava o dia todo sentado em um banquinho, com um canivete na mão, picando fumo de corda.
Um senhor de idade, cujo nome eu nunca soube.
Ele consertava os calçados das pessoas numa pequena sapataria, escura e fétida… sobre uma grossa bancada de madeira curtida pelo tempo, onde algumas máquinas manuais existiam em meio a muita bagunça.
Apesar dele ser o homem que consertava o sapato das pessoas, ele nunca fora capaz de consertar seus próprios sapatos.
O Pica-fumo, talvez por causa do fumo de corda que fumava insistentemente, havia perdido as duas pernas por trombose.
O homem que consertava sapatos, não tinha pés.

 

She talks to rainbow.

abril 29th, 2009

Um dia amou a chuva como os cavalos marinhos amam o mar de maneira singela, e honesta. Quando pequena, regava o jardim, e se sentia plantando arco-íris por todo lado com aquela mangueira cor de laranja. Um dia, ela deixou de ser pequena, deixou de ser singela, deixou de ser honesta, deixou de amar a chuva. Só a plantação permaneceu .
Descolorindo.
Descolorindo.
Descolorindo.

Agora não adianta querer tudo de volta.

Protegido: Like Walden

abril 29th, 2009

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Suite Quebra-Nozes.

abril 29th, 2009

Alguém já esteve perto de uma bomba que explodiu? De um carro? De um homem?
A primeira impressão que se tem, não, não há uma primeira impressão, é um grave e profundo som que parece que está em você, nos seus pulmões, nos seus ouvidos, é como se você fosse uma caixa de ressonância. Você é os graves. Os Graves.
Os agudos, são menos perceptíveis, mesmo porque você não escuta direito depois da explosão.
Vi uma mão com parte do braço passar a centímetros do meu rosto e cair sobre o painel de um carro parado que ainda oscilava. Bati nas minhas orelhas, querendo acordar os meus ouvidos… ouvia os agudos… baixos e distantes, primeiro eram vidros e estilhaços caindo, depois gritos, o desespero é agudo, é ardido.
Quando você vê uma mão e parte de um braço passarem a centímetros do seu nariz, você apenas fica feliz por não serem seus membros voando pelo ar.
Em meio a isso tudo, tem um milésimo de segundo, onde tudo parece parar, antes do BUM.
Como se tudo, se o tudo, ficasse suspenso no tempo, acho que fica.
Aquela mão, era mão de mulher.
E eu estava intacta. INTACTA.
Meio surda, mas intacta. Só conseguia pensar na segunda bomba.
Terroristas sempre usam a segunda bomba. Os agudos foram aumentando. Mais vozes, mais gritos, sirenes e buzinas, e as pessoas começaram a se aglomerar, meu tornozelo começou a doer.
Mas eu estava intacta. Só havia sofrido uma queda pelo deslocamento bruto de ar. Mas estava longe o suficiente pra que a explosão não me causasse danos graves. Não pensei em salvar ninguém, não me dispus a socorrer ninguém, comecei a correr, por uma viela, queria me afastar o mais que pudesse daquele pequeno centro comercial.
A segunda bomba.
Uns 5 minutos depois, escutei, já de uma distância mais segura a segunda explosão.
Alguém já esmagou como dedo uma formiga doceira?
Faça, e observe…
As demais formigas nas proximidades correm pra ajudar a companheira, ou pra carregar o cadáver… é quando você pode matar mais formigas doceiras.
Sempre se lembre da segunda bomba se sobreviver a primeira.
Corra.
No hotel, eu lavei o rosto, lavei as mãos, tirei as roupas com respingos de sangue que não me pertenciam, e por mais que eu lavasse os olhos, não conseguia apagar aquela imagem da mão presa ainda a um pedaço do braço passando a centímetros do meu nariz.
Depois que tudo passa, você percebe, que.. não passa.
Ver pela tv é um tanto diferente. É bang-bang à italiana.
In loco, a experiência me pareceu um tanto diferente. Mais contraste, menos fumaça, mais sonora, grave… Na tv, só vemos os agudos.
Aquele soldado sem uma das pernas sentado na calçada, estancando a própria hemorragia me lembrou o quebra-nozes.
Nós somos as nozes no front.

Alguém já esteve perto de uma bomba que explodiu? De um carro? De um homem?

 

( Em um papel perdido pela cara.)

————–

” As profecias nunca disseram nada sobre você.
Falam sobre crianças que nascem com cobras entre seus pés, e não temem o estrondo das tempestades. Falam sobre trombetas, e espetáculos pirotécnicos. Sobre falanges de xipógafos se fagocitando, mas não falaram sobre seu encanto.

O comércio da fé, não pagou minhas contas, não cumpri a pena pelo estelionato que se tornou a vida em família.
a falsidade psicotrópica dos deuses pintados com tinta de segunda sobre superfícies…
SU-PER-FI-CI-A-IS
não me redimi dos meus pecados, tampouco tive o seu perdão.

As profecias dizem:
“… não saberás distinguir o bom do mau absinto.”

SINTO MUITO MEU AMOR
mas as profecias nunca disseram nada sobre você e eu…
sobre os olhares que nunca se encontravam e se despediam,
sobre as falhas de caráter que nunca nos afligiram,
sobre como tremia a sua sob a minha mão macia.

As profecias não disseram nada,
não disseram porque não se sabia que nossos profetas,
vivem em profunda afasia.”

————–

Ele não achava sentido nos papéis que achava pela casa.
Pra quem ela escrevia? Sobre quem? Sobre o que?
Ele sabia que aquelas palavras não eram pra ele, e deixava os papéis onde …  eles estavam. Por vezes, nem os lia. Era um repeito incondicional pelos outros lados que nela existia. E talvez fosse isso, esse repeito, que sempre a trazia de volta.
Ele nunca sentiu ciúmes, porque nunca soube de quem sentir. Pra ele, aquelas pessoas descritas, eram, apenas, imaginação.
Eram os outros que deveriam sentir ciúmes, porque ela no ombro dele que ela dormia todas as noites, até que seu braço começasse a doer, e então ele pousava a cabeça dela sobre o travesseiro ao lado e só então dormia.

A conhecia há tantos anos, e ainda havia tanto pra descobrir.

Cobriu seu corpo com o edredom, se virou e não demorou a dormir.

 

Em alguns momentos, nem ele entende, como pode sentir raiva e saudade ao mesmo tempo.
Só a luz do monitor  ilumina o cômodo.
A vida vai bem, tudo tão certo quanto deveria estar se assim não estivesse. Porque então alguma coisa no peito parecia não estar no seu devido lugar.
Seria angústia?
Mágoa?
Saudade?
Talvez fosse a dúvida por não saber como haveria de ter sido se não fosse como é.
Seria mais feliz?
Ele nem sabia dizer se era feliz, pra poder se questionar se podia ser mais.
As alegrias iam e vinham. A perfeição de tudo não o satisfazia como esperava que uma vida a dois deveria. Uma vida a dois, aquilo soava tão estranho pra ele.
Se lembrava de alguém a dizer, que duas vidas juntas eram melhor que uma vida a dois.
Alguém ainda parecia morar nos seus olhos fechados. Sim, ele era capaz de ver alguém, quando fechava seus olhos castanhos e brilhantes.
Alguém que às vezes ele queria que estivesse compartilhando dos momentos bons que ele tinha, alguém, que não existiamais.
Alguém que talvez nunca tivesse existido, verdadeiramente.

Alguém que ele jamais pôde prever. Nem ver, nem tocar.

Alguém que ele, às vezes, imaginava sentir. Pensava se ela ainda lembraria dele, após tantos anos, se ela ainda pensava nele com força, pra que ele, pensasse nela, no mesmo instante. E toda vez que ele lembrava dela, aleatoriamente, ele pensava que talvez ela estivesse tentando um contato telepático. Mas quem ainda recorreria a contatos telepáticos com tanta tecnologia de comunicação a disposição… ela tentaria.
E ele… sabia disso.
Nenhuma mensagem nova na caixa de entrada.

 

5:51am Parte I – A pele.

abril 29th, 2009

Sentada na cama, ela coloca a meia calça, enquanto ele centraliza o nó da gravata que combina perfeitamente com seu terno de 2.000 dólares, o colar de pérolas que ela gosta de usar com seu pretinho, sempre,  tão básico, não contrasta com o tom de sua pele clara. Os brincos discretos compõem um visual elegante, tanto quanto deveria ser, se assim não fosse.
Tudo perfeito?

Olhando pro espelho, ele se depara com os próprios olhos, castanhos e brilhantes, e se vê como a figura principal de uma pintura acadêmica emoldurada por perfeição e tédio. Se detém por um instante nos ângulos formados pela moldura do espelho, pelos ângulos dos espaços do seu closet, e os ângulos da porta  aberta que da para o quarto, por onde a imagem perfeita da vida perfeita podia entrar e agrediar seus olhos, seus olhos castanhos e ainda brilhantes.

Tudo perfeito?

Sob o punho da camisa milimetricamente bem cortada uma picada de pernilongo coça. E há de coçar por muito tempo, ainda.

 

Van Gogh

abril 29th, 2009

As equipes estavam concentrando as buscas nos locais onde havia maior concentração de pessoas no momento do terremoto. Após 9 dias, as esperanças eram muito pequenas.
Não havia estrutura pra buscas mais abrangentes, não havia equipamento, nem profissionais especializados.
O cheiro de carne em decomposição era pano de fundo praqueles dias.
A viagem de intercâmbio se tornou uma viagem humanitária. Ela não sabia onde e como estavam seus colegas de quarto, e não se preocupava com isso. Concentrava-se em pegar o entulho das ruínas, e carrega-los pra fora do local do desabamento. Apesar de usar luvas de borracha bem grossas, suas mãos estavam doloridas, suas costas e seus calcanhares também. Aquele era um trabalho de formiguinha, e ser mais uma naquela multidão de mascarados satisfazia algo dentro de si.
O cheiro de morte a lembrava de casa.
No caminho que fazia entre a chácara onde vivia e a estrada mais próxima, sempre sentia o cheio de animais mortos no meio da plantação, e quando olhava pro céu azul, via vários corvos e urubus.
Sempre pensava em Van Gogh. Sempre pensava que ele havia pintado o cheio da morte debaixo daquele céu azul, naquele campo amarelo.
Era o cheiro da morte.
Campos cheios de morte, girassóis apodrecendo em um vaso… Van Gogh fedia.

“for you I even be a sunflower… another reason to cut off an ear”

Ressonância magnética.

abril 29th, 2009

Tudo no mundo parece velho demais.
As situações se repetem sem a menor cerimônia, sem o menor constrangimento.
Nem a brutalidade, nem a selvageria, que vez ou outra, vejo brotar nos humanos ao redor cheiram surpresa. Tudo se repete, e às vezes, nem o nome dos personagens são trocados.
O querer tanto instiga, quanto corrói, e não é a dose que distingue o remédio do veneno, é a fé.
Eu não tenho fé, mas também não tenho uma Ferrari. Acho que dá pra viver sem algumas coisas.
Mas, viver sem coisas novas…
O que define uma coisa como nova, não é a idade, é a falta de conhecimento que temos sobre ela, e muitas coisas novas estavam no passado, antes das coisas começarem a se repetir dessa maneira.
Novo era tudo aquilo que eu não conhecia.
Eu era tão nova.

E agora quero tudo de volta.

Bolo está no forno.

Na fábrica ele trabalhava na linha de produção.
Era um trabalho metódico, repetitivo, cheio de gabaritos e nenhuma inspiração.
Ao contrário de qualquer outra pessoa, ele gostava. Gostava da segurança que sentia em saber que faria sempre a mesma coisa, sempre do mesmo jeito, gostava de saber que podia contar sempre com o mesmo dinheiro no final do mês.

Porque então amava aquela menina?

Ele nunca sabia se ela voltaria após cada partida, ele nunca sabia quem iria encontrar em casa encarnada naquele corpo cheio de carnes e emoções brutas.
Talvez fosse toda aquela instabilidade que o fizesse amar as 8 horas de acontecimentos meticulosamente ordenados que tinha no trabalho. Era como se ele fosse remunerado por algo que realmente precisava… segurança. Ou será que ele precisava sentir que controlava algo em sua vida.

Aquela menina era toda descontrolada.
Aquele menino da linha de montagem era matematicamente calculado.

Havia uma ou outra coisa que ele não entendia, aquela menina que vivia com as mãos com marcadas por queimaduras, tinha 4 cadernos de receitas e outros tantos livros de culinária…
Porque ela sempre tentava fazer bolos sem usar nenhuma receita?
Certa vez ele cogitou a possibilidade dela estar inventando uma receita própria, mas ela nunca anotava as medidas, nunca anotava as medidas.

Fôrma nº20, 40min, 150 graus.

O bolo está no forno.

 

“Não é possível que você acredite numa coisa dessas depois de tudo que vivemos juntos!”
“Não me contaram, eu estava na extensão, ouvi vocês dois conversando.”

————–

Ronnie… era uma boa idéia.
Uma idéia doce, fálica, absurda, terna, violenta e bifurcada.
A idéia Ronnie era violentamente doce.
Aquele jeito de estar… sempre todo torto, sempre inconstante, sempre olhando pra ela pela através da lente da máquina fotográfica… ele gostava de olhar pra ela dessa maneira. Gostava de como a luz parecia se decompor quando passava por ela. Pra ele, a luz passava por ela… como partículas exóticas. como wimps ou neutrinos. Pra ela, ele era a sua partícula mais exótica.
O erotismo imagético residia nas figurinhas carimbadas, que ele grudava na pele dela como curativos coloridos e cheios de bichinhos.
Era tudo assim entre eles, grudado, curado, curativado, cura-ativada um para o outro. Eles não sabiam ser um outro, cada um era um, inteiro, peça sem encaixe, auto-adesiva, translúcida e fluorescente.

_ Passa a manteiga por favor.
_ Vou tatuar você.
_ A margarina, Ronnie, por favor
_Vou escrever Mortal But Invincible nas suas costas
_ A margarina ou a manteira, POR FAVOR!
_ Quanto vai de margarina?
_ O suficiente
_ O suficiente basta?
_ Acho que não, mas se basta, acaba onde basta lembra?
_ Sim, e nada que se pareça com isso deve ser o sentido da vida não é?
_ Sim… sabe, um dia farei o bolo perfeito…
_ Um bolo sem receita?
_Um bolo que jamais se repetirá! Um dia a receita caótica vai dar certo, como um macaco em uma maquina de escrever reproduzindo Otelo!
_ Graaaande, Otelo!
_Macunaíma?
_Pode ser… vou a locadora então.
_ Feito!

————–

“Não é possível que você acredite numa coisa dessas depois de tudo que vivemos juntos!”
“Não me contaram, eu estava na extensão, ouvi vocês dois conversando.”

Não eram eles dois, eram outros dois, os outros que eles não sabiam ser, eram outros, outros vultos, insultos, Ronnie e Madeleine eram intocáveis, eram inspiração.

“Não era eu, acredite, era Madeleine, MADELEINE!”

 

O vulto.

abril 29th, 2009

Os papéis sobre a mesa se acumulavam.
Os arquivos no computador também.
Muita coisa pra fazer, e tanto tempo pra se perder.
A garrafa de vinho vagabundo filtrava o único fio de raio de sol que adentrada o quarto por um vão da janela, deixando o quarto todo azulado.
O entremeio sem continuidade o incomodava um tanto, mas o que realmente o preocupava era não saber onde havia guardado o cortador de unhas. Deitado na cama, com os pés sobre o cobertor velho dobrado, ele olhava suas unhas grandes e azuis, e decidiu que naquele dia não se levantaria. Não por falta de vontade de ir trabalhar, mas por não querer calçar meias com aquelas unhas tão grandes.
Sua mãe sempre dizia que quem guardava as coisas nos seus devidos lugares sempre sabia onde tudo estava.
Pena que sua mãe não o guardou em um lugar de onde ele jamais se perderia.
Perdido, num quarto de cinco por quatro.
Perdido. Como o cortador de unhas.
O telefone tocava sem parar há mais de uma hora. Seria sua esposa? Seria sua mãe? Seria seu patrão? Seria Madeleine?
Madeleine era uma ideia tão densa, tão intensa, tão meticulosamente desenhada por Dedalus que era felicidade se perder na ideia Madeleine.
Insultos, tudo o que ela dizia soava como insultos. Não eram coisas ruins, mas eram coisas às quais ele reagia.
Era bom poder reagir à alguma coisa àquela altura.
Madeleine não tinha belas curvas, não tinha belas pernas, nem era longilínea, Madeleine era uma força destruidora, dessas que a natureza esconde de maneira silenciosa e premeditada, e então acontece. É, Madeleine era uma força da natureza.
Às vezes parecia um lusco-fusco, mas era 9 na escala Richter.
Madeleine era um HD inteiro de coisas significativas, Madeleine era um hemisfério todo de lembranças, de cheiros, de texturas, de olhares furtivos, de abraços apertados, de desejos que nunca foram segredados.
Madeleine não era bonita. Madeleine era, ele dizia, uma inspiração encarnada que rondava seus pensamentos.
Na quinta série, quando a conheceu, ela estava no laboratório de ciências, durante o intervalo. Ele executando seu plano que seria infalível, se não fosse pela presença azulada de Madeleine. Ela, tingida de azul de metileno, experimentava transmutar para azul uma rosa branca “os capilares vão levar o pigmento até as pétalas” – explicou ela então, enquanto ele roubava um feto humano abortado pra fazer um abajour para o seu quarto.
O feto azulado no canto do quarto lembrava Madeleine, (e) sua flor azul.

 

Café expresso.

abril 29th, 2009

“Café expresso, forte, encorpado, sem açúcar, por favor”- ele odiava café solúvel.
O dia começava após a primeira dose de cafeína.

Todavia, mais um dia.

Já não suportava mais o peso da carne, a gravidade, as pessoas, os lugares, as mesmas conversas, não, ele não suportava mais.
Não suportava mais não caber em si, não suportava não poder voar, não suportava olhar as pessoas e enxergá-las como elas não eram capazes de fazer… ele queria ter nascido de olhos fechados pro mundo, não agüentava mais as vaidades, a vacuidade do ser. Não mais.
Colocou uma roupa qualquer, o mesmo par de coturnos de sempre sobre as mesmas meias de ontem, pegou a lata de tinta pra pintar a parede do studio e foi pra onde deveria ir.
Querer, ele queria mesmo ir pro meio do mato. Queria subir num pé de carambolas, e escutar aquele silencio…
Ele dizia “Escuta, minina…” e não havia nada pra escutar, e isto o agradava.
A não interferência humana.

 

A retrovisão.

abril 29th, 2009

A ilha Isabela arde.
Caminhando rumo às nuvens, ela esperava encontrar um caminho parecido com algum que a levasse pra um inferno estereotipado qualquer, mas se sentia subindo incorporada ao céu.
Fazia frio, envolta em brumas. quanto mais abria os olhos, menos enxergava.
Depois de uma hora e meia sobre o lombo de um cavalo “bem traiado”, uma paisagem tem que ser realmente avassaladora pra suprimir a dor nas suas próprias ancas.
A paisagem primitiva do Sierra Negra era realmente avassaladora.
Ela só conseguia pensar que o inferno ficava mais próximo do céu do que se podia imaginar.
A 1200m de altitude, um enorme caldeirão fumegante com uma cratera de 90km² que podia explodir a qualquer momento num evento devastador justifica qualquer dor.
Os cavalos não avançaram mais, o terreno escorregadio os impedia de prosseguir, não a falta de coragem.
O guia era conciso nas informações, adestrado pra dizer sempre as mesmas coisas não sabia como responder algumas das perguntas que ela fazia, talvez, geologicamente muito complexas, ou por demais específicas.
Ela cultivava um curioso interesse por vulcões, desde que numa madrugada de 1988, durante uma transmissão de ginástica olímpica das Olimpíadas de Seul, a apresentação do ginasta Dimitri Bilozertchev fora interrompida por uma chamada jornalística que mostrava o vulcão Kilawea em erupção no Hawai. Kilawae ardia debaixo d’água. Ela, ardia sob sua própria pele. Assim como Isabela la isla bela.
Olhando para o pé Sierra Negra, se lembrou dos seus próprios pés.
Muitos anos atrás, numa tarde quente, ela olhava para seus pés e pensava em algo do qual já não se lembrava, quando olhou pelo retrovisor e viu alguém correndo no meio da rua.
Era seu amigo.
Um do tipo que não havia dois.
Ela desceu do carro ainda em movimento, e desceu correndo em sua direção, se encontrando com ele num abraço de doer.
“Ai minha orelhas, acabei de dilata-las mais” – disse ele colocando as mãos nas orelhas.
E então ele lhe mostrou a língua, bifurcada, que a deixou muito muito muito  irada, pois haviam  combinado de bifurcarem suas línguas no mesmo dia…
A ideia de separar- juntos agradava a ambos de uma maneira ininteligível. Era uma dilaceração poética para eles.
“Bifurquei a uma semana, cicatrizou super bem, sem nenhum problema” ele disse e continuou

“Nossa, como você está bonita” -  ela pensou que ele só havia dito aquilo porque estavam vestindo a mesma roupa.
Ambos de camiseta camuflada, calça azul e coturnos.
O dia estava muito quente, ele estava suado, havia corrido uma quadra na subida atrás do carro segurando uma lata de tinta com a qual ia pintar o studio naquela tarde, e ainda assim seu cheiro era bom.
Na sua cabeça pedaços das frases daquela última conversa, apareciam e sumiam, como vaga-lumes.
“quero ir pra sua casa, e dormir lá, e subir nas árvores”
“você vem me buscar?”
Isabela ardia, como só as meninas sabem arder com lembranças tardias.

 

O leão.

abril 29th, 2009

Anos depois, na sala de parto ela havia de se lembrar do último abraço do amor que mata que havia recebido até então, numa tarde de sol de dezembro, no meio de uma rua sem nenhuma árvore por dezenas de metros.
Seu filho nasceu quieto, não chorou, não abriu os olhos, apenas bocejou… levado ao peito para a primeira mamada, ele abocanhou o peito da mãe e a apertou com as pequenas mãos, o que lhe arrancou lágrimas, e lhe trouxe algumas cores de volta.

Era uma criança calma, nascido num dia frio de agosto, todo rosado, de olhos fechados, e forte como um leão havia de ser.
Cresceu e se mostrou uma criança inventiva, paciente, criativa, metodicamente desorganizada o que não a preocupava, mas a divertia.
Ela o abraçava com o abraço do amor que mata de asfixia mecânica.

Imperfeição.

abril 29th, 2009

O material orgânico já compostado estava no ponto pra ser aproveitado. Destampou a composteira, pegou um punhado de material, e colocou delicadamente num copo com água…
A terra preta e úmida se diluiu…
Três meses haviam se passado desde que o pé de carambolas havia sido derrubado.
Se sentia triste, não pela morte da sua árvore de estrelas comestíveis, mas pelo motivo que a fizera tomar a decisão de derrubá-la.
Três meses idos desde que seu melhor amigo havia se matado.
Seis meses desde que ele subira no pé de carambolas pela última vez.
“Não dá pra compostar lembranças e saudades, uma pena.”
Disse ela as minhocas, acho… já que só haviam minhocas ali.

Tinta úmida.

abril 29th, 2009

Dirigindo seu carro sempre de maneira cautelosa, ele subia a rua falando sobre a cor da tinta que ela havia escolhido pra pintar o portão.
Ele falava, e ela parecia não escutar, estava olhando pros próprios pés desde que entrara no carro, com as mãos sobre a calça azul que estava esquentando muito ao sol.
Sol de dezembro.
No porta-malas do carro, duas latas de tinta, e alguns suplementos que seriam usados.
A rua que subiam cruzava uma avenida, pra passar pelo sinal verde ele acelerou, ela tirou o olhar de sobre seus pés, e olhou pelo espelho retrovisor, viu alguém correndo no meio da rua, mas seu astigmatismo não a deixou enxergar.
“O louco do seu amigo está correndo atrás do carro.” – disse ele.
Ela sorriu, e abriu a porta do carro ainda em movimento.
Ele desacelerou e ela desceu ainda com o carro andando, e foi ao encontro daquele louco.
Sozinho no carro, e já no cruzamento das vias, ele achou melhor atravessar e parar sob a sombra de uma árvore, enquanto aqueles dois loucos se abraçavam no meio da rua.
Pensou que ambos subiriam até onde ele estava, pra que todos conversassem.
Ignorando o trânsito, só o sol forte pra tirar aqueles loucos do meio da rua.
Ele estava curioso pra saber porque não subiam até onde ele estava.
Curioso pra saber sobre o que falavam.
Curioso pra saber porque o louco do amigo dela havia corrido daquela maneira atrás do carro.
Um minuto é muito quando se espera por alguém.
Quarenta minutos, parecem intermináveis.
Então aqueles dois loucos começaram a subir em sua direção, e por um segundo ele se sentiu aliviado.
Quando ela ia pra longe, ele, sempre se perguntava se ela voltaria.
Ela, sempre voltava.
Mas o que realmente o incomodava é que, Ela, sempre ia.

 

Bolhas de sabão.

abril 29th, 2009

O mesmo ônibus até o mesmo trabalho de sempre. Só o tédio parecia não ser o mesmo, a cada dia se apresentava de maneira diferente, maior, e mais contundente. Sentada no ônibus, ela, respirava voluntariamente e parava, pra saber se seus pulmões se encheriam novamente e involuntariamente… “Eles sempre se enchem” – constatou ela com um certo desânimo.

Madeleine, como toda cidadã de Otávia, era um tanto inconstante, vivia seus dias pendurada na incerteza, usava sempre o mesmo relógio parado, os mesmos coturnos mal-amarrados, o mesmo sorriso descarado e nunca tomava o café da manhã na mesma padaria por duas vezes seguidas. Gostava de pessoas, de vê-las, de cheirá-las, de senti-las, mas nunca interagia. Passava seus dias, e às vezes, seus dias eram noites inteiras, e outras vezes, noites e meia, e outras tantas horas, desenhando e escrevendo num pequeno caderno ordinário de espirais meio amassadas e capa de um quadriculado anacrônico.

“Mal acabado, tudo mal acabado.” olhava seus desenhos e não conseguia termina-los. As idéias se sobre punham, idéias novas, fulgurantes, cheias de cores, de contrastes, e se tornavam ontem com a mesma velocidade que apareciam.

“Bolhas de sabão” sabia ela.

 

Todavia mais um dia

abril 29th, 2009

Era um sujeito comum, sujeito as intempéries e a toda sorte de cataclismos de um cotidiano cheio de rotinas.

Sentado na cadeira sem par que permanecia no canto do quarto, ele se debruça sobre seus joelhos, e amarra, outra vez, numa outra manhã, de uma outra maneira, os mesmos sapatos. Mas ele não era o mesmo… nem a sola dos seus sapatos. Ambos, cada vez mais carcomidos.

O tempo para Ronie parecia uma roda gigante, que o levava todas às manhãs a vislumbrar a mesma luz alaranjada entrando pela janela da sala do seu pequeno apartamento, no centro velho de uma metrópole carcomida, assim como seus sapatos. Não via o céu, nem o sol, apenas o reflexo da luz que batia todas as manhãs na parede do prédio ao lado cheio de pequenos ladrilhos cor de laranja.

Mesmo depois dos sapatos amarrados, Ronie permaneceu debruçado sobre seus joelhos, num instante fleumático, tentando achar animo, ou a anima.

Todavia, mais um dia.

 

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