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O vulto.

abril 29th, 2009

Os papéis sobre a mesa se acumulavam.
Os arquivos no computador também.
Muita coisa pra fazer, e tanto tempo pra se perder.
A garrafa de vinho vagabundo filtrava o único fio de raio de sol que adentrada o quarto por um vão da janela, deixando o quarto todo azulado.
O entremeio sem continuidade o incomodava um tanto, mas o que realmente o preocupava era não saber onde havia guardado o cortador de unhas. Deitado na cama, com os pés sobre o cobertor velho dobrado, ele olhava suas unhas grandes e azuis, e decidiu que naquele dia não se levantaria. Não por falta de vontade de ir trabalhar, mas por não querer calçar meias com aquelas unhas tão grandes.
Sua mãe sempre dizia que quem guardava as coisas nos seus devidos lugares sempre sabia onde tudo estava.
Pena que sua mãe não o guardou em um lugar de onde ele jamais se perderia.
Perdido, num quarto de cinco por quatro.
Perdido. Como o cortador de unhas.
O telefone tocava sem parar há mais de uma hora. Seria sua esposa? Seria sua mãe? Seria seu patrão? Seria Madeleine?
Madeleine era uma ideia tão densa, tão intensa, tão meticulosamente desenhada por Dedalus que era felicidade se perder na ideia Madeleine.
Insultos, tudo o que ela dizia soava como insultos. Não eram coisas ruins, mas eram coisas às quais ele reagia.
Era bom poder reagir à alguma coisa àquela altura.
Madeleine não tinha belas curvas, não tinha belas pernas, nem era longilínea, Madeleine era uma força destruidora, dessas que a natureza esconde de maneira silenciosa e premeditada, e então acontece. É, Madeleine era uma força da natureza.
Às vezes parecia um lusco-fusco, mas era 9 na escala Richter.
Madeleine era um HD inteiro de coisas significativas, Madeleine era um hemisfério todo de lembranças, de cheiros, de texturas, de olhares furtivos, de abraços apertados, de desejos que nunca foram segredados.
Madeleine não era bonita. Madeleine era, ele dizia, uma inspiração encarnada que rondava seus pensamentos.
Na quinta série, quando a conheceu, ela estava no laboratório de ciências, durante o intervalo. Ele executando seu plano que seria infalível, se não fosse pela presença azulada de Madeleine. Ela, tingida de azul de metileno, experimentava transmutar para azul uma rosa branca “os capilares vão levar o pigmento até as pétalas” – explicou ela então, enquanto ele roubava um feto humano abortado pra fazer um abajour para o seu quarto.
O feto azulado no canto do quarto lembrava Madeleine, (e) sua flor azul.

 

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