
Naquele dia, justo naquele dia, ela acordou do avesso.
Embora tivesse feito escova progressiva, seu cabelo parecia ter sido penteado com algum instrumento precário do período paleolítico.
Decidiu que ia prender o cabelo, colocar a primeira calça que estivesse pendurada, a primeira camiseta que estivesse na gaveta da direita pra esquerda, o primeiro calçado da primeira caixa de cima para baixo na sapateira, e o moletom que estava jogado na poltrona do seu quarto.
Assim, saiu de casa. De óculos. Se sentindo absurdamente normal. Nenhum signo que denotasse sua anormalidade.
Dentro do bi-articulado, nem se lembrava mais pra onde deveria ir, mas ia, devia ser automático, desceu dois pontos antes, para poder caminhar, como o médico havia recomendado. Para que deixasse o sedentarismo e melhorasse sua condição cardiorespiratória. Mas o que a fazia mesmo descer aqueles dois pontos antes. Era o menino da loja de discos.
Isto mesmo, o menino da loja de discos. Quantos meninos ainda tem uma loja de discos?
Aquele tinha.
E embora ela, até então, nunca tivesse encontrado, ou inventado coragem pra falar com ele, ela sabia exatamente o que ele iria dizer.
- Procurando algo específico?
( ela nem notou que estava parada em frente a loja, olhando pros vinis, só pra poder vê-lo de mais perto, naquele dia, justo naquele dia, ele estava escutando Ramones )
- You´ll never know how much I really love you…
- O que?
( “Cala a boca, idiota” – pensou ela sobre si mesma, ao perceber o que havia dito )
- Sabe, aquela música dos Beatles, que diz ” You´ll never know how much I really love you. You´ll never know how much I really care”
- Do you want to know a secret? Do you promisse not to tell?
( aquilo seria um diálogo?)
- Essa!
- Está nesse LP! – diz ele tirando o Yellow Submarine das mãos dela e lhe dando o Please please me.
- Ah, aqui, faixa 11.
- Isso. Mais alguma coisa?
- P.S. I love you.
- Nesse mesmo álbum. Faixa 9. – diz ele apontando para a faixa.
Ele tinha as unhas perfeitas. E não tinha pelos nos dedos, isso era demais. Ela imaginava que ele também não tivesse pelo sobre os dedos dos pés. De alguma maneira, e sem explicação aparente, ela cultivava uma certa aversão por pelos sobre os dedos dos pés. Pra ela, ficavam bem apenas em um hobbit.
No caixa, pagando, ela notou que, se comprasse, não teria outra desculpa pra aparecer ali.
- Puxa, me desculpe, acho que meu dinheiro não dá pra levar ele.
- É original, raridade. Tenho outros, mas não dessa tiragem.
- Eu posso voltar no final da tarde pra buscar?
- Claro, qual seu nome?
( ai, nome, com seu nome nada comum, com uma simples procura no google, ele descobriria que ela é maluca)
- Amábile! – respondeu de sobressalto.
- Prazer, Fernando.
( ” Não, Fernando não pode, Fernando só pode haver um, é tipo highlander” – pensou ela, pensando em Fernando )
- Fernando, eu volto.
- Certo, boa tarde.
( Ao ver ela sair da loja, ele se sentiu o cara mais idiota do planeta, onde ele estava com a cabeça de dizer que o nome dele era Fernando, se ela voltasse e procurasse por algum Fernando e ele não estivesse iriam achar que ele era maluco. )
Naquele dia, justo naquele dia, ele acordou determinado a deixar de ser um mero espectador.
Colocou uma camiseta dos Ramones, sua calça jeans preferida, uma que já fazia o caminho do trabalho pra casa e de casa para o trabalho sozinha, os mesmos all star vermellhos de sempre, aqueles que ele não usava desde seus 18 anos, e foi trabalhar.
Ele sabia que ela passaria ali na mesma hora que passava todos os dias, vestindo suas camisetas do Ramones que só mudavam de cor. Decidiu que dessa vez chamaria a atenção dela. Passou a manhã toda com os vinis na mão, lendo os títulos das músicas.
- “Can’t Get You Outta My Mind” será que ela entederia ?
- Não, acho que talvez fosse melhor… “I can’t seem to make you mine” …
- Que loser! Não, melhor “My My Kind Of A Girl”!
- Pare, piá! “She´s a sensation” !
- Claro, ” She´s a sensation”!!!
Depois de um breve diálogo consigo mesmo, ele pega o Pleasant Dreams e coloca na vitrola, mas ao invés de colocar a faixa 7, ele coloca a 9 …
Ao levantar seu olhar, lá está ela, na porta da loja, parada, e dentro da loja tocando “You Didn’t Mean Anything To Me” …
Uma ligeira dor na boca do seu estômago, seguido por um nó na garganta, sensação de vertigem, falta de ar, fez com que ele não conseguisse pensar em nada. Só notou que ela nem estava com uma camiseta dos Ramones naquele dia.
- Vai lá, idiota, fala com ela.
- Não era pra ser assim, era pra ela parar, e entender a música, perguntar se eu gosto de Ramones. Estava tudo planejado na minha cabeça.
- Vai, piá, pare de discutir com você mesmo, vai, e fala com ela, é seu trabalho.
- É, é só o meu trabalho.
O menino da loja de vinis, andou aqueles poucos metros do fundo até a entrada da loja, com as pernas bambas, coração acelerado, e ensaiando o que iria dizer pra que não parecesse tão idiota quanto estava se sentindo.
- Procurando algo específico? ( “Merda não acredito que disse isso, eu devia ter dito algo menos default” voltou ele a falar consigo mesmo em meio a síncope pela qual seu corpo passava )
- You´ll never know how much I really love you…
- O que?
( “Cala a boca, idiota” – pensou ele sobre si mesmo, ao perceber o que havia dito )
- Sabe, aquela música dos Beatles, que diz ” You´ll never know how much I really love you. You´ll never know how much I really care”
- Do you want to know a secret? Do you promisse not to tell?
( aquilo seria um diálogo?)
- Essa!
- Está nesse LP! – diz ele tirando o Yellow Submarine das mãos dela e lhe dando o Please please me.
- Ah, aqui, faixa 11.
- Isso. Mais alguma coisa?
- P.S. I love you.
- Nesse mesmo álbum. Faixa 9. – diz ele apontando para a faixa. ( “Que perfume é esse?” pensou ele ao sentir o cheiro mais doce e azulado que já sentira na vida.)
Ele a encaminhou ao fundo da loja, onde ficava o caixa, tendo a certeza que perdera a única chance de chamar a atenção da menina das camisetas dos Ramones. E ela, justo ela, justo naquele dia em que ele resolveu colocar uma camiseta dos Ramones e ouvir Ramones pra ela, queria um vinil dos Beatles.
Tentou pensar em uma maneira de fazê-la voltar.
- Qual o preço?
- R$ 270,00 ( talvez ela pedisse um desconto e um diálogo fosse mantido)
- Puxa, me desculpe, acho que meu dinheiro não dá pra levar ele.
- É original, raridade. Tenho outros, mas não dessa tiragem.
- Eu posso voltar no final da tarde pra buscar?
- Claro, qual seu nome?
- Amábile!
- Prazer, Fernando.
- Fernando, eu volto.
- Certo, boa tarde.
Naquele dia, justo naquele dia, as coisas não aconteceram como eles gostariam que tivesse acontecido, mas, se tivesse sido, nada disto teria sido escrito, e vocês não iriam querer saber o que aconteceu no final da tarde. Às vezes, o amor perfeito, arde. Às vezes, se torna tarde demais. E querem saber? Ainda assim, existe beleza nisto.
A língua se esvai em silêncio,
estorpor,
confusão mental,
interceptação de pensamento.
Desdobramento lento.
Irreal.
A ausência do discurso no poeta
não é vazio,
não é déficit,
não é afasico,
não é anártrico.
É,
pérola xipófaga.
De articulação labial entrecortada.
Labial.
Entre cortada.
Pelo beijo fala o poeta.
Realejo = fala poética.
E a língua, se esvai!
Em silêncio.
De fato perdi o tesão de compartilhar minhas coisas com a frequência de antes, porém tenho produzido muito mais agora…
Não tenho mais conversado com pessoas como antes. Mas com as pessoas com quem tenho conversado, olho no olho, a conversa tem sido agradável, satisfatória e sem frescuras.
Vez ou outra eu vejo as coisas como os outros vêem, e me entristeço com isso.
Mudei tanto, me mudei, e no entando, tem coisas que nunca mudam. Mas agora não me sinto mais capaz de encontrá-las.
Vivi no dia da marmota por quase um ano, quase UM ANO!
Nesse período citado, revivi várias vezes o dia em que eu quebrei. Eu já falei sobre isso? Não me lembro ao certo quando foi. Mas um dia eu acordei passando mal, muito mal. Corri pro quintal, pra respirar, andar, e EU QUEBROU, sim.. isso mesmo… o EU QUEBROU, não eu… mas o meu eu… estilhaços pra todo lado… e no meio desse “salve-se quem puder” eu não pude sair correndo de mim… colapsei brutalmente. Doeu, doeu mesmo. Depois disso, eu parei de ser um macaco que finge que é gente, que finge que acredita que vive rodeado de pessoas que não são macacos que pensam que são gente… eu, cadê o eu? Nem precisava ser o meu, podia ser qualquer um, qualquer eu servia… só aqueles estilhaços não serviam.
Ah, se pelo menos meus ossos fossem de vidro ao invés do meu coração!}
Se pelo menos em minha alma perpetrasse um pouco, um pouquinho de razão.
MAS NÃO, EU TENHO QUE SER ESSA PARANÓIA ESFUZIANTE FUCSIA E FURTA COR!
Eu tenho um milháo de coisas pra contar, caramba, quanta coisa aconteceu nesse tempo, nesse mesmo tempo, que se repetiu todos os dias de maneira mononuclear e insípidamente ardida… ardia, a ilha Isabela arde, como deviam arder todas as meninas!
Eu sinto tanta falta de poder conversar com um amigo que tive, tanta falta tanta falta tanta falta tanta quanta.. quanta falta… quântica… o antigo cântico dos cantigos quânticos… meu amigo, que falta me faz, eu tinha 16h diárias de você todo dia.. quanta coisa tínhamos pra falar, quanta ainda tenho.
Perdi a pose, perdi a mão, perdi o dom da palavra cantada… agora é sono, sono, sono e mais nada… eu me lembro de você e ainda dou risada!
Nossa porque misturo tanto os assunto, isso não tem nada a ver com meu estilhaçamento… ou tem e eu é que não sabia?
Ah, quem se importa se o sabonete sobre a pia é líquido ou em barra?
Nós nos importávamos.
Ah, e quantas entrelinhas, quantas? QUANTAS?
Mas nada disso importa-a-a vou abrir a porta-a-a, pra você entrar… …. … … … … … … … … eh… assim funciona, eu acho.
Ah…
Estou quase terminando de sombrear… tive uma ideia tosca agora… talvez coloque em pratica… talvez…
OBRIGADA A TODOS, POR COMPREENDEREM MEU AFASTAMENTO.
É que existir é, ainda, aquele doce tormento que eu mesma invento…For those on the line and those on the make, we salute you!
tipo assim… serve?
E, desde esse momento que a alma não seja, todavia, uma estranha ávida por colher primeiras impressões para alimentar seu espirito faminto…..
Uma das coisas que mais marcaram minha infância foi a descoberta da arte… e eu descobri a arte, fugindo… eu precisava de abrigo… Eu pedi pra mudar de escola, por causa de uma menina, chamada Luciana, que me infernizava… ela sentia um prazer incrivel, em dizer que eu era de lugar nenhum… que eu não tinha mãe.. naquela época eu ainda era uma só, e essa não sabia se defender… tudo ali era novo demais, todas aquelas sensações eram muito novas pra mim… eu havia sido tirada a fórceps da infância, e lançada aos leões… Tudo pra mim era tão ardentemente colorido… mas tinha aquela figurinha nefasta, com dedos finos, e um jeito de andar de ave de rapina… ela nunca se aproximava diretamente.. ela chegava até onde estávamos sempre dando voltas ao redor… observando e então chegava e se pronunciava… Tinha de 5 para 6 anos de idade… e ela ja era HUMANA… Dois anos depois… eu pedi pra me mudar de escola… Achava que outra escola seria um outro mundo… E era… Porém, lá.. tinha uma menina… chamada Gisele… prima irmã de Luciana.. e o inferno teria recomeçado, se dessa vez, eu não tivesse me bipartido no primeiro instante “Carrie, a estranha” que me fizeram passar… Biparti… Eu então podia me defender de qualquer um… E me levar pra onde eu quisesse… Durantes os intervalos da 3ª série, eu corria pra biblioteca… onde pesquisava sobre coisas que meu amigo Antonio Ferreira dos Santos Jr. me contava… E numa dessas fugas… e momentos de desbravar terras distantes demais daquele pátio na hora do “recreio” … eu descobri Gustav Klimt… Quando eu vi a foto de Klimt, vestindo um tipo de túnica e segurando um gato… eu surtei… era como se o conhecesse há seculos… era uma figura tão tão rente… Naquele livro, nada se falava sobre o artista… apenas figuras e mais figuras, e análises idiotas sobre elas… filosofices… Mas o choque, o CHOQUE mesmo.. foi quando vi Friso Bethoven: “Alegria Pura”… Tinha aquele casal, eroticamente embrenhado um no outro, com os pés envolvidos em delicados fios e havia espinhos ali… e nada daquilo me parecia ALEGRIA PURA… NADA… Porém… a primeira figura feminina da fileira de baixo do coro.. era única que mostrava os dentes… aquilo sim era alegria pura… porque.. ela não estava ali… e aquela figura me encantava… Debaixo da imagem.. havia escrito, que quando Friso Bethoven fora apresentado pela primeira vez, foi acompanhado de um catálogo que dizia ” O desejo de felicidade encontra alívio na poesia. A arte nos leva ao reino ideal onde encontramos a alegria pura, a felicidade pura e o amor puro. Coro de anjos do Paraíso” E a única figura daquela imagem que estava num reino ideal… que mantinha sua mente muito além de tudo o que existia naquela realidade, era ela… E ela me encantava… e eu podia sentir o que ela sentia se fechasse os olhos e sorrisse daquela maneira… sim, eu podia… Quando vi Friso Bethoven: Os Poderes hostis… meu deus… que era aquilo… eram os poderes hostis a felicidade.. era o seu oposto… diametralmente oposto… lá estavam Tifão, e suas filhas… Doença, mania e morte… Desejo, Impureza e Excesso… E eu via aquilo.. como todas as mulheres que uma mulher pode ser, ou ter em si… e vocês acham a Desejo do Gaiman linda? a Desejo do Kimt é perfeita… uma ruiva com flores azuis no cabelo e cara de santa com olhar de vadia… Tive sonhos.. por meses.. com aqueles quadros… eu existia em meio a tinta… em meio àquelas formas… eram sonhos lisérgicos demais pra uma criança tão pequena… Eu amava todos aqueles ornamentos do Klimt… e aqueles peixes, e corujas, e … aquilo era capaz de me prender… era uma opulência erótica dourada e reluzente entre escuros tão profundos.. que… eram casa pra mim… Depois veio Munch… e meu primeiro contato com ele.. foi atravéz do quadro “A dança da vida” … e apesar de todo mundo se centrar nas figuras principais… na figura da vida representada pela Tulla, ou na idosa representando a morte, ou no casal se olhando de mãos dadas… ou no carinha dançando e se jogando de maneira indiscreta sobre a moça que dançava com ele… eu só conseguia ver… um bando de gente MORTA… com uma única pessoa realmente viva, uma, de vestido florido… que espiava tudo lá detrás… ela era a única que encarava quem estava pintando aquele quadro.. ela era o foco de Munch… ela estava longe demais pra que os olhos fossem retratados… na garota do casal dançando a sua frente nem se via os olhos…mas Munch viu seus olhos… porque eles existiam pra olhar Munch… esse A dança da vida, pertence ao Amor Nascente que é parte do Friso da vida… aquilo é como muitas vezes o amor nasce… entre olhares furtivos.. meu segundo contato com Munch… foi através de Nu junto a cadeira de vime . A atmosfera é criada pela cabeça da garota… voltada para baixo.. dando um ar de desistência tremendo… nossa aquilo me doeu tanto… suas cores e formas, e aquele quarto atras…ela pertencia aquele quarto de cores frias… seu corpo, aquelas cores, constrastavam completamente com tudo ao seu redor… com aquele lençol colorido sobre a cadeira de vime… Esses foram meus dois primeiros passos… daí, por diante… eu me perdi e me encontrei em muitas outras imagens… E até hoje, me perco em algumas… Mas há tempos não me perco em algo realmente novo… há tempos… Hoje não quero desenhar…

Estou fazendo uma bolsa pra mim… mas no meio do caminho tinha um monte de papel… ai ai… alguém quer me dar um presente?
Ando querendo polainas coloridas… alguém?
Estou cheia de segredos… cheinha ^^
Por isso desencanei de ficar hablando no blog!
Tem dias que eu não tenho a menor paciência comigo…
Tenho um lado odiável! Suporto, porque faz parte de mim e me dá as nuances que eu tanto acho que não tenho… mas odeio esse lado frágil e patético!
Ando dando um braço de distância dele!
Um dos meus grandes problemas, talvez o maior, são os pequenos detalhes… minha capacidade de dispersão é EMORNE, quando se trata de coisinhas… me perdi nos pistilos de uma flor hoje… =( carbonizei comida, só pra variar.
não basta suporte
impassível insuficiente
falta que faz essa dor espessa
de urgência eminente
não basta o suporte
o peso dos pensamentos eclode em fístulas de demência
a pele não limita o ego
o envolve com superficialidade
e ousa não entender
o invólucro da alma não é a carne,
é a arte.
o suporte, não basta!
Vasta desordem
caminhos, tortuosos e dissociados
mente desermada.
Soluços dissonantes
surtos, constates e decodificados
existência descoisificada.
Nestes dias, o princípio da incerteza tempera o destempero.
O relógio de plástico barato marca horas que não condizem com o tempo decorrido.
O que é ordem? O que é disciplina?
Três vezes ao dia, duas colheres de albumina?
Quem é o leão que pasta?
E quem pode fugir da desgraça de não conseguir mais distinguir o azul do verde musgo?
E quem se importa?
O caminho é tortuoso e dissociado, o eco que ouço é um grito que jamais será dado.
Mas o que incomoda, mesmo, é o relógio de plástico barato.