w w w . s h a n t a l l . c o m

‘Past Intense’

Tão eus

maio 11th, 2014

Nas ondas dos teus pensamentos
submersos sob teus cabelos confusos
reside o que de mais fascinante existe em tua figura.

A sombra desenhada pela luz dos teus olhos
não camufla tuas tempestades.

Adentra em mim insurgindo das tuas profundezas
o teu sussurro lancinante
dilacerando assim, minhas entrelinhas.
Tuas entrelinhas em mim.

Nas ondas dos teus pensamentos
submersos sob teus cabelos confusos
reside o que de mais dilacerante figura em tua existência.

Este teu eu, tão meu,
tão entrelaçado quanticamente a
este tão meu, tão teu,
eu.

Eu que, aqui me encontro,
Eu que em ti me perco.
Nessas tuas entrelinhas, tão minhas,
Que, mergulhado assim, me acerco.

Decerto,
todo errado.

Foi mais ou menos assim.

janeiro 14th, 2011

Naquele dia, justo naquele dia, ela acordou do avesso.
Embora tivesse feito escova progressiva, seu cabelo parecia ter sido penteado com algum instrumento precário do período paleolítico.
Decidiu que ia prender o cabelo, colocar a primeira calça que estivesse pendurada, a primeira camiseta que estivesse na gaveta da direita pra esquerda, o primeiro calçado da primeira caixa de cima para baixo na sapateira, e o moletom que estava jogado na poltrona do seu quarto.

Assim, saiu de casa. De óculos. Se sentindo absurdamente normal. Nenhum signo que denotasse sua anormalidade.

Dentro do bi-articulado, nem se lembrava mais pra onde deveria ir, mas ia, devia ser automático, desceu dois pontos antes, para poder caminhar, como o médico havia recomendado. Para que deixasse o sedentarismo e melhorasse sua condição cardiorespiratória. Mas o que a fazia mesmo descer aqueles dois pontos antes. Era o menino da loja de discos.

Isto mesmo, o menino da loja de discos. Quantos meninos ainda tem uma loja de discos?

Aquele tinha.

E embora ela, até então, nunca tivesse encontrado, ou inventado coragem pra falar com ele, ela sabia exatamente o que ele iria dizer.

- Procurando algo específico?
( ela nem notou que estava parada em frente a loja, olhando pros vinis, só pra poder vê-lo de mais perto, naquele dia, justo naquele dia, ele estava escutando Ramones )
- You´ll never know how much I really love you…
- O que?
( “Cala a boca, idiota” – pensou ela sobre si mesma, ao perceber o que havia dito )
- Sabe, aquela música dos Beatles, que diz ” You´ll never know how much I really love you. You´ll never know how much I really care”
- Do you want to know a secret? Do you promisse not to tell?
( aquilo seria um diálogo?)
- Essa!
- Está nesse LP! – diz ele tirando o Yellow Submarine das mãos dela e lhe dando o Please please me.
- Ah, aqui, faixa 11.
- Isso. Mais alguma coisa?
- P.S. I love you.
- Nesse mesmo álbum. Faixa 9. – diz ele apontando para a faixa.

Ele tinha as unhas perfeitas. E não tinha pelos nos dedos, isso era demais. Ela imaginava que ele também não tivesse pelo sobre os dedos dos pés. De alguma maneira, e sem explicação aparente, ela cultivava uma certa aversão por pelos sobre os dedos dos pés. Pra ela, ficavam bem apenas em um hobbit.

No caixa, pagando, ela notou que, se comprasse, não teria outra desculpa pra aparecer ali.

- Puxa, me desculpe, acho que meu dinheiro não dá pra levar ele.
- É original, raridade. Tenho outros, mas não dessa tiragem.
- Eu posso voltar no final da tarde pra buscar?
- Claro, qual seu nome?
( ai, nome, com seu nome nada comum, com uma simples procura no google, ele descobriria que ela é maluca)
- Amábile! – respondeu de sobressalto.
- Prazer, Fernando.
( ” Não, Fernando não pode, Fernando só pode haver um, é tipo highlander” – pensou ela, pensando em Fernando )
- Fernando, eu volto.
- Certo, boa tarde.

( Ao ver ela sair da loja, ele se sentiu o cara mais idiota do planeta, onde ele estava com a cabeça de dizer que o nome dele era Fernando, se ela voltasse e procurasse por algum Fernando e ele não estivesse iriam achar que ele era maluco. )
Naquele dia, justo naquele dia, ele acordou determinado a deixar de ser um mero espectador.
Colocou uma camiseta dos Ramones, sua calça jeans preferida, uma que já fazia o caminho do trabalho pra casa e de casa para o trabalho sozinha, os mesmos all star vermellhos de sempre, aqueles que ele não usava desde seus 18 anos, e foi trabalhar.

Ele sabia que ela passaria ali na mesma hora que passava todos os dias, vestindo suas camisetas do Ramones que só mudavam de cor. Decidiu que dessa vez chamaria a atenção dela. Passou a manhã toda com os vinis na mão, lendo os títulos das músicas.

- “Can’t Get You Outta My Mind” será que ela entederia ?
- Não, acho que talvez fosse melhor… “I can’t seem to make you mine” …
- Que loser! Não, melhor “My My Kind Of A Girl”!
- Pare, piá! “She´s a sensation” !
- Claro, ” She´s a sensation”!!!

Depois de um breve diálogo consigo mesmo, ele pega o Pleasant Dreams e coloca na vitrola, mas ao invés de colocar a faixa 7, ele coloca a 9 …

Ao levantar seu olhar, lá está ela, na porta da loja, parada, e dentro da loja tocando “You Didn’t Mean Anything To Me” …

Uma ligeira dor na boca do seu estômago, seguido por um nó na garganta, sensação de vertigem, falta de ar, fez com que ele não conseguisse pensar em nada. Só notou que ela nem estava com uma camiseta dos Ramones naquele dia.

- Vai lá, idiota, fala com ela.
- Não era pra ser assim, era pra ela parar, e entender a música, perguntar se eu gosto de Ramones. Estava tudo planejado na minha cabeça.
- Vai, piá, pare de discutir com você mesmo, vai, e fala com ela, é seu trabalho.
- É, é só o meu trabalho.

O menino da loja de vinis, andou aqueles poucos metros do fundo até a entrada da loja, com as pernas bambas, coração acelerado, e ensaiando o que iria dizer pra que não parecesse tão idiota quanto estava se sentindo.

- Procurando algo específico? ( “Merda não acredito que disse isso, eu devia ter dito algo menos default” voltou ele a falar consigo mesmo em meio a síncope pela qual seu corpo passava )

- You´ll never know how much I really love you…
- O que?
( “Cala a boca, idiota” – pensou ele sobre si mesmo, ao perceber o que havia dito )
- Sabe, aquela música dos Beatles, que diz ” You´ll never know how much I really love you. You´ll never know how much I really care”
- Do you want to know a secret? Do you promisse not to tell?
( aquilo seria um diálogo?)
- Essa!
- Está nesse LP! – diz ele tirando o Yellow Submarine das mãos dela e lhe dando o Please please me.
- Ah, aqui, faixa 11.
- Isso. Mais alguma coisa?
- P.S. I love you.
- Nesse mesmo álbum. Faixa 9. – diz ele apontando para a faixa. ( “Que perfume é esse?” pensou ele ao sentir o cheiro mais doce e azulado que já sentira na vida.)

Ele a encaminhou ao fundo da loja, onde ficava o caixa, tendo a certeza que perdera a única chance de chamar a atenção da menina das camisetas dos Ramones. E ela, justo ela, justo naquele dia em que ele resolveu colocar uma camiseta dos Ramones e ouvir Ramones pra ela, queria um vinil dos Beatles.

Tentou pensar em uma maneira de fazê-la voltar.

- Qual o preço?
- R$ 270,00 ( talvez ela pedisse um desconto e um diálogo fosse mantido)
- Puxa, me desculpe, acho que meu dinheiro não dá pra levar ele.
- É original, raridade. Tenho outros, mas não dessa tiragem.
- Eu posso voltar no final da tarde pra buscar?
- Claro, qual seu nome?
- Amábile!
- Prazer, Fernando.
- Fernando, eu volto.
- Certo, boa tarde.

Naquele dia, justo naquele dia, as coisas não aconteceram como eles gostariam que tivesse acontecido, mas, se tivesse sido, nada disto teria sido escrito, e vocês não iriam querer saber o que aconteceu no final da tarde. Às vezes, o amor perfeito, arde. Às vezes, se torna tarde demais. E querem saber? Ainda assim, existe beleza nisto.

 

A fascinação residia em sobradinho antigo, já com a pintura sofrida pelo efeito, inevitável, do tempo.
Estava encarnada em pele e osso, vestida sempre em seus vestidinhos esvoaçantes, de tecido fino, “Europeu!” – dizia ela.

Aquele olhar de quem vislumbrara todas as novidades vindas do velho mundo, era o retrato, exato, da fascinação.

Ela olhava o mundo, como se o tempo tivesse parado, como se ainda sonhasse em viajar em um dirigível, como se causasse o mesmo furor de seus 15 anos de idade, com suas canelas finas a mostra -  “Que abuso” – diziam quando ela passava.

Era a fascinação. E a fascinação era abusada!

A menina de cabelos curtos e ondas na franja,  por algum motivo havia parado no tempo.

Aos 85 anos de idade, ainda era menina das canelas de fora, das ondas no cabelo, do rouge europeu e pó de arroz, cheirando a talco e alfazema.

Aos 85 anos de idade, Dona Amábile não sabia em que ano estávamos, nem percebera a mudança do mundo que avistava do seu quarto, por entre os balaústres de sua varanda.

Aos 85 anos de idade, ela tinha o olhar mais doce e fascinante do meu mundo. Envolto em pregas de pele flácida, fina, porém sem manchas senis.

E eu? Eu me perdia em pensamentos só de olhá-la. Alí. Parada. Parada como se emoldurada pelo madeiramento velho das portas de duas folhas que davam praquela varanda.

Portas altas, estreitas, com vidros decorados e coloridos.

Minha mãe dizia que se eu não me casasse, quando crescesse,  iria terminar como Amábile… Sozinha. Vendo a vida passar pela janela.

E eu?

Eu achava que terminar como Amábile, era melhor que terminar como minha mãe, que vivia vendo a vida passar pela televisão.

Amábile passava os dias escrevendo, contando botões que guardava em potes de vidro, colando coisas em álbum, costurando as bonecas de pano que pendurava nas árvores do jardim e que pereciam com a ação do tempo e das tempestades. As pessoas diziam que aquilo havia de ser bruxaria, e que as bonecas estavam enforcadas. Não, as pessoas não são capazes de entender pessoas como ela.

Minha avó contava que Amábile nunca fora certa da cabeça, que queria comer o mundo com os olhos, estava sempre um passo a frente, estava sempre antenada com todas as novidades europeias, que tinha sempre os tecidos mais inusitados, que tinha sempre as bijuterias mais diferentes, que sempre dizia coisas, sobre as coisas que lia,  sobre os livros que recebia, os artistas  e pensadores com quem se correspondia.
Amábile fora uma intelectual precoce.
Tocava piano, lia sobre psicanálise, amava aquela efervescência toda, cinema, e rádio, e carros, e aviões, e dirigíveis.

O que haveria prendido ela em um porta-retrato?

O que a teria feito parar no tempo?

E em que tempo ela estava?

Minha avó, com suas definições precisas um dia disse que Amabile fora uma locomotiva a vapor que repentinamente… saíra dos trilhos.

O que haveria acontecido com Amabile?

Eu nunca soube, só sei dizer que Amabile me despertou a fascinação.

Me fez do outro lado da rua parar o tempo para observá-la. Para observar por entre os balaústres carcomidos  aquele doce  intervalo de vida congelado no tempo, impresso naquela varanda de forma tão fascinante.

Eu a observava, descia duas quadras, atravessava duas ruas, torcendo pra que Amabile estivesse na janela, só – para – poder – vê-la.

Ainda que em pensamentos, eu gostava de falar com ela. E mesmo que ela nunca me respondesse e jamais me ouvisse, eu continuava falando e falando e falando.
Ela me fascinava.
E me fascinava pensar que ela podia estar esperando por mim. Imaginando o que aquela menina tanto fazia sentada naquela bicicletinha vermelha por tanto tempo do outro lado da rua olhando pra sua janela.
Um dia,  Amabile me viu, me viu e sorriu, sorriu pra mim, me fez um sinal com a mão, eu deixei a bicicleta cair no chão, atravessei a rua, e debaixo da varanda  a imagem não era tão interessante.
Às vezes a gente enxerga melhor de longe. De perto não dava pra ver quase nada, não dava pra ver a penteadeira, não dava pra ver os potes de botões, nem dava pra ver ela direito.

Ela me deu algo que só depois de muito tempo fui capaz de compreender.

Um bauzinho, de lata, com umas coisas dentro. Uns papéis de carta, um caderno, uns envelopes, umas fotos e uma bússola.
Uma bússola!
Amábile me deu uma bússola.
Uma bússola antiga, tão antiga quantos os sonhos de Amabile pareciam ser.

Isto que estou contando, estivera até então, enterrado em algum lugar da minha mente. E quanto mais fundo você enterra, mais você preserva. Soterrado sobre escombros de anos e anos de desgraças e desventuras, de alegrias e outras doçuras.

Esteve o baú.

Na minha última mudança, reencontrei.

Abri, e entendi.

Amabile,  estava perdida.

Sua bússola estava quebrada.
A menina que queria andar numa máquina voadora estava desnorteada.
Entre os papéis encontrei uma partitura, enfiada em um dos envelopes. Partitura antiga e carcomida, assim como a varanda e o tudo que emoldurava aquela figura que me fascinava.
Levei pra um amigo tocar…  pra descobrir o que Amabile escutava.

E ele disse “É uma música linda, de amor.”

Embora ele não tenha tocado no piano, mas em um teclado moderninho, deu pra entender.
Há alguns anos voltei à minha cidade natal e resolvi saber de Amabile.

Depois do dia em que ela me deu o baú, acho que guardei os olhos com os quais a olhava em algum lugar protegido do mundo, do tempo, das pessoas.  Nunca mais desci as duas quadras, nunca mais atravessei as duas ruas, nem fiquei horas e horas olhando praquela varanda.
Acho que guardei aqueles olhos até que me fosse seguro… usá-los novamente.

Em minha busca por Amabile,  esperava encontrar algum velhinho que morasse por perto, que contasse uma história emocionante sobre ela, que fosse me dizer que ela fora apaixonada por um oficial alemão, casado, com quem se correspondia mas nunca havia se encontrado, e que ele vindo ao seu encontro havia falecido naquela viagem do Hinderburg, ou que talvez tivesse se apaixonado por um piloto de avião, ou por alguém que tivesse lhe dado a tal bússola, e lhe enviado as tais cartas, das quais ela só havia guardado os envelopes, pois era algo tão secreto que ela tinha que ler e rasgar as cartas em seguida, pra que ninguém descobrisse nada sobre seu amor proibido. Eu queria ouvir qualquer história mirabolante que me fizesse viajar no tempo e desvendar o segredo da fascinação.

Mas só escutei uma história triste de como ela morreu sozinha, como um bebê, sem ninguém da família e abandonada num abrigo, usando fraldas e recebendo alimentação por uma sonda.

Tudo em volta de onde a fascinação residiu um dia, se tornou comércio.
O sobradinho que deve ter ficado de herança pra algum sobrinho fora invadido, depredado por moradores de rua e usuários de crack.
E agora se encontra lacrado com tábuas.
Os balaústres da varanda estão quebrados.
Não apenas carcomidos… quebrados.
E naquela porta que dava pra varanda, porta alta, estreita, com vidros decorados e coloridos, há uma placa de vende-se.

E eu gostaria de poder dizer que se fechasse os olhos ainda podia ver Amábile
observando a rua. Eu fechei meus olhos, mas o barulho da rua, agora tão movimentada, quase me enlouqueceu.

Amábile morreu.

Eu não resido mais no mesmo lugar mas continuo querendo desvendar os mistérios de Amábile.

O segredo da fascinação.

É… Talvez a beleza disso, seja entender que algumas perguntas ficam mais bonitas sem respostas.
É algo divino nas entrelinhas. Apenas o último observador sabe a verdade.
E a minha verdade é esta.
Tenho um baú, de lata, velho, com cartas, fotos, envelopes, papéis de carta, um caderninhos e uma bússula quebrada.

O que faz de mim, também, uma desnorteada.
E quer saber? … Eu vejo beleza nisto.

A fascinação residia em sobradinho antigo, já com a pintura sofrida pelo efeito, inevitável, do tempo.
Estava encarnada em pele e osso, vestida sempre em seus vestidinhos esvoaçantes.

E agora… Eu tenho que fechar a minha janela.

porta alta, estreita, com vidros decorados e coloridos.
há uma placa de vende-se.

E eu gostaria de poder dizer
que se fechasse os olhos ainda podia ver Amábile observando a rua.
Eu fechei meus olhos, mas o barulho da rua, agora tão movimentada, quase me enlouqueceu.

Amábile morreu.

Eu não resido mais no mesmo lugar
mas continuo querendo desvendar os mistérios de Amábile.

O segredo da fascinação.

É, talvez a beleza disso,
seja entender que algumas perguntas,
ficam mais bonitas sem respostas.
É algo divino nas entrelinhas.
Apenas o último observador sabe a verdade.
E a minha verdade é esta.
Tenho um baú,
de lata,
velho,
com cartas,
fotos,
envelopes,
papéis de carta,
caderninhos e uma bússula quebrada.

O que faz de mim, também, uma desnorteada.
E quer saber? … Eu vejo beleza nisto.

A fascinação residia em sobradinho antigo,
já com a pintura sofrida pelo efeito, inevitável, do tempo.
Estava encarnada em pele e osso,
vestida sempre em seus vestidinhos esvoaçantes.

E agora, eu tenho que fechar a minha janela.

antineoplásico

maio 3rd, 2010

não basta suporte
impassível insuficiente
falta que faz essa dor espessa
de urgência eminente

não basta o suporte
o peso dos pensamentos eclode em fístulas de demência
a pele não limita o ego
o envolve com superficialidade

e ousa não entender
o invólucro da alma não é a carne,
é a arte.
o suporte, não basta!

Dissociado dissonante.

maio 3rd, 2010

Vasta desordem
caminhos, tortuosos e dissociados
mente desermada.

Soluços dissonantes
surtos, constates e decodificados
existência descoisificada.

Nestes dias, o princípio da incerteza tempera o destempero.

O relógio de plástico barato marca horas que não condizem com o tempo decorrido.

O que é ordem? O que é disciplina?
Três vezes ao dia, duas colheres de albumina?

Quem é o leão que pasta?
E quem pode fugir da desgraça de não conseguir mais distinguir o azul do verde musgo?
E quem se importa?

O caminho é tortuoso e dissociado, o eco que ouço é um grito que jamais será dado.

Mas o que incomoda, mesmo, é o relógio de plástico barato.

Ousa

abril 29th, 2010

falar
sem
calar

o
outro

amar
sem
prender

um
pouco

berrar
sem ficar
rouco

casar
sem morrer
oco

Fuga dissociativa

abril 29th, 2010

_ Existem?
_ Em algum lugar, ou em algum tempo… talvez. Creio que sim.
_ Você os inventou?
_ Não, só os reuni, e os misturei.
_ Como assim? São partes suas?
_ Não, são partes de outros. Dos outros que amei.
_ Gosta deles?
_ Gostei, mas se foram. Morreram, se afastaram ou desapareceram.
_ Sente falta deles?
_ Não.
_ Por que os reviver então?
_ Não são mais eles, são outros outros agora, os recortei, desenhei sobre eles, colei seus pedaços todos misturados, são outras pessoas agora.
_ Como Frankesntein?
_ Eu ou eles?
_ Não sei, me diga você.
_ Sim, eu sou como Victor.
_ Como o criador?
_ Sim.
_ Se sente bem assim?
_ Sinto, quando os faço sentir.
_ Mas eles não sentem verdadeiramente.
_ E eu neles, também não.
_ Eu não entendi, nada.
_ Não faz nenhum sentido, não tem ordem, não tem seqüência. Não existem sinapses, se você não as criar.
_ Então você nos transforma em Victor, isso é manipulação.
_ Sim.
_ E como se sente com isso.
_ Sinto, quanto lhe faço sentir
“A terapeuta sorri verdadeiramente. A paciente, também.”

Falo de mim

abril 29th, 2010

A língua que falo,
a língua que beijo,
o queijo que gosto,
o rosto que vejo,
não dizem nada sobre mim.

A língua e o falo,
a língua e o beijo,
o queijo e o gosto,
o rosto que vejo,
dizem espelho sobre mim.

Engaiolada.

abril 29th, 2010

enquanto
encanto
canto
engaiolada
sangro

o tempo já não suporta
já não dá suporte,
já não conforta
nem nada dessas coisas que dizem que é o que importa
apenas,
passa.

quero voltar.

precisaríamos ser
tanto quanto o tempo o é
mas não somos,
somos cromossomos monocromáticos
imprecisos e desprovidos de uma segunda visão
apenas, passamos

quero voltar.

ardemos indefinidamente
num breve instante
insuportavelmente impreciso, desconexo e intransigente…
e de que vale ser gente,
se nosso brilho tivesse a velocidade da luz ao menos
e o tempo?
apenas, passou

quero tudo de volta.

Rinocerontes.

abril 29th, 2010

doce ternura diáfana

encarnada em ferocidade visceral
abrupta
suprimida de culpa
exalando a inocência proclamada
na busca pela flor azul

E ainda assim, acontece.

Allegro com fermezza

abril 29th, 2010


Masturbação mental inefável e compulsiva:
Quando, tentar esquecer é igual a se lembrar.

Indissoubilis.

Inenarrável

abril 29th, 2010
você existe inerradicável
em mim num âmbito em que só a razão persiste
infecciosa, e irrefutável

você existe inescrutável
em mim num ângulo em que só a visão resiste
inafável e inimpugnável

você existe inescusável
em mim
de maneira inevitável
inegável
indiscutível
inelidível
ineludível
inestancável

você reside inestilhaçável
em mim
num sentimento, instante espaço sem tempo
impermeável
inestimável
inexaminável
inexigível
indeterminável

você existe em mim
odiosamente inexorável

eu existo em você
odiosamente inexpiável

existimos
de modo inexplanável
inexplicável
inexprimível
inexpressável
inexterminável
inextirpável
inestinguivel

infactível? não sei…
mas certamente inextricável

in extremis … inesquecível

Proudly powered by WordPress. Theme developed by Shantall.
Copyright © w w w . s h a n t a l l . c o m. All rights reserved.