O primeiro entardecer tristonho que tive, se deu por causa de um urso, de pelúcia laranja vagabunda com uma gravata xadrez horrível, recheado mal e porcamente com bolinhas de isopor que faziam um barulho irritante.
Eu, estava em frente de casa, com um vestido amarelo pavoroso. que ia até o meio das canelas, um par de sandálias Ortopé, um relógio de plástico ordinário, e o urso… Ah, o maldito urso de pelúcia laranja vagabunda com uma gravata xadrez horrível.
Uma menina que estava passando se sentou ao meu lado, no degrau da área de casa onde eu me encontrava sentada, provavelmente entediada. O tédio é um fator constante e precoce em minha digníssima existêncis..
A menina que tinha cara de porquinho da índia, por causa dos incisivos finos e compridos, elogiou meu urso… aquele urso de pelúcia laranja vagabunda com uma gravata xadrez horrível, e me pediu pra pegá-lo. Eu, boazinha como já fui um dia, e mongolóide como não consigo deixar de ser… deixei!
Conversamos durante algum tempo, talvez nem tenha passado de 5 minutos, mas lembrando hoje, parece ter sido muito, muito tempo. Até que ela apontou pra onde morava, na quadra ao lado, e me pediu pra levar o urso pra casa dela, e eu? Deixei… claro!
Ela disse que no dia seguinte, às 6 horas da tarde, me traria o urso de volta. Eu disse pra ela que não sabia ver horas no meu relóginho de plástico ordinário, e ela me mostrou onde os ponteirinhos estariam quando fosse 6 horas.
Aos 5 anos de idade, 5 meses, 3 dias e 18 horas e um minuto, eu fui passada pra traz pela primeira vez na vida.
Quando os ponteiros chegaram ao devido lugar, a menina não apareceu. Nem ela, nem meu urso de pelúcia laranja vagabunda com uma gravata xadrez horrível.
Naquele instante eu percebi, que apesar da pelúcia ser vagabunda, dele ser laranja, e fazer um barulho de bolinhas de isopor irritante, sim, eu gostava dele… pelo simples fato dele ser MEU.
E pela primeira vez na vida, eu atravessei uma rua.
Andei meia quadra, cheguei a esquina, e atravessei outra rua. Fui até a casa da menina que tinha cara de porquinho da índia, sem nem me lembrar o nome dela… para buscar o meu lindo urso de pelúcia laranja.
A mãe dela me deu o urso, e a menina me acompanhou até em casa, e nos tornamos amigas…
Anos depois, em frente ao pelotão de fuzilamento… eu achei meu urso, todo carcomido, sujo, imundo… com feses de ratos, e teias de aranhas, jogado no sótão da casa da minha avó.
Tão sujo e carcomido, quanto todas as minhas lembranças de infância.
Acho que minha infância, apesar de rica em acontecimentos, era como o meu urso… laranja, vagabunda, ordinária, recheada de bolinhas de isopor que faziam um barulho irritante.





























