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Van Gogh

abril 29th, 2009

As equipes estavam concentrando as buscas nos locais onde havia maior concentração de pessoas no momento do terremoto. Após 9 dias, as esperanças eram muito pequenas.
Não havia estrutura pra buscas mais abrangentes, não havia equipamento, nem profissionais especializados.
O cheiro de carne em decomposição era pano de fundo praqueles dias.
A viagem de intercâmbio se tornou uma viagem humanitária. Ela não sabia onde e como estavam seus colegas de quarto, e não se preocupava com isso. Concentrava-se em pegar o entulho das ruínas, e carrega-los pra fora do local do desabamento. Apesar de usar luvas de borracha bem grossas, suas mãos estavam doloridas, suas costas e seus calcanhares também. Aquele era um trabalho de formiguinha, e ser mais uma naquela multidão de mascarados satisfazia algo dentro de si.
O cheiro de morte a lembrava de casa.
No caminho que fazia entre a chácara onde vivia e a estrada mais próxima, sempre sentia o cheio de animais mortos no meio da plantação, e quando olhava pro céu azul, via vários corvos e urubus.
Sempre pensava em Van Gogh. Sempre pensava que ele havia pintado o cheio da morte debaixo daquele céu azul, naquele campo amarelo.
Era o cheiro da morte.
Campos cheios de morte, girassóis apodrecendo em um vaso… Van Gogh fedia.

“for you I even be a sunflower… another reason to cut off an ear”

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